Confissão #1: Sobre cheiro de comida numa mesa de escola e risadas ao fundo…

Ok, eu tive que respirar umas quinhentas vezes antes de iniciar este post… Mas o destino quis que eu ligasse a televisão no Canal Futura justamente quando o Conexão Futura (programa maravilhoso, gente! Super recomendo) propunha um debate sobre a relação entre o Bullying nas escolas e a depressão na vida adulta e… Simplesmente não pude mais adiar. Não dá mais para fingir que isso não me incomoda, varrer para baixo do tapete o que me sufoca. Afinal, foi para isso também que criei esta Oficina.

Mas vou logo avisando: se você não gosta de ler posts que não sejam “bonitinhos”, não leia este aqui.   A verdade nem sempre é bonita, assim como a vida não é justa e rapadura é doce mas é dura de quebrar os dentes. Então, aviso dado, deixe-me começar…

Muito provavelmente você não leu neste post, então deixe-me respirar mais uma vez para a fazer essa primeira confissão — inspira … Guarda o ar um pouquinho, retem cada partícula de oxigênio no sangue… E, devagar, expira. Ok, talvez eu precise de mais três sessões dessas, peraí…

Ok, foi. Minha primeira confissão: Eu sou uma pessoa depressiva. Mesmo. Não é agradável me expor assim, principalmente por ser algo que as pessoas próximas a mim não sabem ou não querem saber. Mas é verdade. Embora eu não aparente na maioria dos dias… Na verdade, eu divido meus andares em momentos de agradável euforia e contentamento e caídas no precipício que, em geral, são pouco (ou nunca) notadas. Por causa dos sorrisos, suponho… Eu prefiro sorrir, mesmo que tenha passado as três horas anteriores chorando. O importante — oh, meu Deus, que vergonha…! — É sorrir. Ninguém percebe sua dor quando você sorri, porque raramente as pessoas analisam minunciosamente o seu sorriso. Com o tempo de uso contínuo, sorrir — esse sorriso de vidro, claro. Sempre longe do tom aberto e esguio do sorriso “real” — se torna quase tão natural quanto respirar. Fácil, fácil… E vai se tornando um esgar de morte a cada uso, confesso. Sorrir o tempo todo cansa mas é algo que só recentemente comecei a me libertar a respeito.

Então, como eu ia dizendo: Eu sou uma pessoa depressiva. Não vou comentar como acontecem os surtos… O post que eu citei talvez dê uma boa ideia para vocês de o quão desagradáveis eles são. O que vim fazer aqui é uma confissão, uma análise, um alerta e um pedido. Muita coisa, eu sei, para um post só. Mas é importante. Já fiz  minha confissão, agora vem a análise: Como toda pessoa com tendência depressiva, eu tenho uma notável falta de autoestima (bem, acredido que seja mais uma confissão…). Eu não sei bem o porque mas acho que isso foi desencadeado ainda na minha infância. Eu, por exemplo, sofro de insônia desde os 6 anos — o que, sem dúvida, é muito cedo para qualquer um desenvolver problemas de sono…

Enfim, eu entendo que essa falta de autoestima pode ser agravada — e muito — na adolescência, em especial nas escolas. Essa é a parte do alerta. Entendam, eu sempre tive “alguma coisa” meio fora do eixo, em especial na minha relação familiar e como sempre me senti à parte do meio afetivo da minha família, alguém de fora. Mas isso piorou — horrivelmente — durante o Ensino Médio e não posso ignorar o papel dos meus colegas de escola neste processo. Isso, senhores, é o meu relato de desamparo: eu fui humilhada, ridicularizada e diminuída em cada um dos três anos de CEFET. Muito provavelmente, parte do motivo é a minha própria personalidade — o que, inclusive, é o motivo pelo qual surgiram na minha vida essas riscas com a minha mãe, por exemplo. Outra parte do motivo residia no fato de eu ser uma garota bem pobre, vinda de escola municipal, no meio daqueles “criados com vó” — como falam aqui em são joão… — que frequentaram cursinhos preparatórios caros, muito bem pagos pelo papai e mamãe, para conseguirem passar na provinha e garantirem uma vaga na Escola Técnica Federal. O terceiro quinhão motivador de todo o bullying era alimentado pelos outros dois: eu sempre fui muito “certinha”, muito “bobinha” mas nunca conseguia ir bem nas provas de exatas. Entendam o contexto: eu mal tive aulas de matemática durante o fundamental e não tive aulas de Física nem Química até chegar ao Ensino Médio. Consegui passar para o CEFET graças às disciplinas “Humanas” e português, que eu sempre dominei com bastante facilidade.

Mas nas exatas… Eu era um terror! E meus coleguinas — depois de pelo menos um ano de intensivo preparatório em cursinhos da vida. — tinham uma base bem superior à minha nesse campo. E não me deixavam esquecer disso, tenham certeza. Eles chegaram a colar o meu vergonhoso “2.0” na porta da sala. Um grupo sempre ia pegar as minhas notas antes de eu conseguir chegar na mesa do professor. Riam, sempre, como se não passasse de uma brincadeirinha. Mas doía pra cacete. Eu comecei com o sorriso de vidro aí. Sorria o tempo todo, como se não estivesse prestes a chorar. Como se não me importasse com o que eles faziam.

Com o tempo, passaram a espalhar todo o meu material pela escola, enquanto eu estava fazendo as malditas aulas de Educação Física. Só pararam de fazer isso quando um inspetor permitiu que eu guardasse as minhas coisas na sala da inspetoria durante as aulas…

Foi quando descobriram que eu não tinha dinheiro para comer. Sim, senhores: eu não tinha dinheiro para almoçar. Comia um joelho de R$2,50 pela manhã e tentava sobreviver com ele no estômago até às 18h da noite. Era tudo que eu tinha, às vezes nem isso. E eles descobriram. Um dia, eu estava tão enjoada de fome que saí da escola e fui dar voltas na rua. O cheiro do restaurante estava me fazendo vomitar bilis, eu simplesmente tinha que sair dali. Catei meus míseros 50 centavos que tinha e fui atrás de uma banquinha de rua que vendesse amendoim. Se eu continuasse sentindo aquele cheiro de feijão, eu achava que ia começar a chorar no meio do bosque.

O amendoim era 60 centavos… Não posso descrever o tamanho da minha exaustão, o tamanho da minha sensação de abandono, ao dar meia volta, retornando todo o caminho de encontro à escola.

Quando voltei, alguns dos meus colegas tinham me preparado uma surpresa: a mesa em que eu usualmente me sentava, bem em frente à mesa do professor, estava cheia de restos de comida. Tinha quentinha com tudo misturado: eu podia ver um bracinho de macarrão, sujo de feijão, caindo para fora e sujando o tampo da mesa. Tinha embalagens com farelo de biscoito e balas semi-comidas. Tinha arroz com milho por toda a mesa…

Eles me disseram que era para eu comer. Que eles tinham catado o resto da comida de todo mundo para eu comer…

Riram alto, enquanto o meu estômago revirava em ânsia e fome e nojo e dor. Meus olhos arderam e, infelizmente, uma lágrima caiu. Mas, graças a Deus, eu consegui não vomitar. Chamei o inspetor, pedindo para tirarem a comida da mesa, coloquei outra mesa no lugar e me sentei.

Sabem qual é a pior coisa? Não, não eram todos os meus colegas que faziam isso. Na verdade, era só um grupinho de idiotas. Mas o resto ficou olhando. Apenas olhando… Isso doeu mais do que podem imaginar, mais até do que ver aquele monte de resto de comida na minha mesa. Mas ainda sim, não era o pior de tudo.

O pior de tudo, era que uma parte minha — mesmo com nojo e vergonha e ódio… — quis sentar e comer um pouco. Eu só tinha 14 anos, gente, e estava com muita fome. Mas a ideia de que uma parte minha ainda o quis, isso foi o que acabou mais comigo. Porque era algo vergonhoso.

Eu estava com vergonha de ser eu a estar ali. Como se a culpa — mesmo sabendo que não — fosse minha. É isso que o bullying faz, gente. Ele vai te consumindo. Vocês acham que, se eu começassse a chorar copiosamente, alguém teria ido me ajudar? Se eu quebrasse o sorriso de vidro, se eu rompesse a barreira da vergonha, alguém iria me ajudar? Eu, honestamente, acho que não. Porque tudo que eu tinha eram aqueles olhares ao meu redor, como se sentissem pena e só. Como se eu valesse sua piedade distante mas não sua ação. Por isso resolvi escrever esse post: gente, quem sofre uma violência, por mais “inofenciva” que pareça, NÃO ESTÁ OK COM ISSO. Mesmo que a pessoa sorria, por favor, olhem bem e percebam que é de vidro, ajudem quem está afundando. Esse é o meu alerta: não fiquem só olhando. Pelo amor de Deus:

NÃO FIQUEM SÓ OLHANDO!

Porque são feridas que nunca vão sarar. Existiram muitas coisas boas no meu ensino médio e algumas pessoas legais também, depois disso. Mas eu nunca vou me esquecer do cheiro daquele entulho de resto de comida na minha mesa e do som das risadas dos imbecis que riam das minhas notas e da minha fome. E de como eu me senti inferior e indigna e imunda. De como o mundo era um lugar vazio e cheio demais, tudo ao mesmo tempo. De como as pessoas podiam ser ruins, só para se divertirem…

E, queridos, eu me tornei uma pessoa depressiva. Assim como a maioria das crianças que sofreram bullying na ambiente escolar, por sinal. Meu pedido, para terminar, é que prestem muita atenção no ambiente escolar em que seus irmãos, amigos e filhos convivem e em como eles interagem dentro deste meio. Muitos dos palhaços do meu ensino médio agora são engenheiros de respeito, formados nas melhores universidades públicas, ótimas notas, alguns até casados. Era “só brincadeira de criança” e eles cresceram. Duvido até que se lembrem do episódio.

Mas eu me lembro. Eu acho que nunca vou me esquecer.

A escola é o maior berçário de traumas que existe. É nela que começamos a lidar com o diferente, com a maior diversidade de pessoas que encontraremos na nossa vida. Não podemos tolerar que, junto com as lembranças juvenis e o conteúdo programático, as crianças aprendam também a se envergonharem de ser elas mesmas; a se sentirem menor por serem diferentes.

Por isso: NÃO FIQUEM SÓ OLHANDO.

As portas do confessionário se fecharão agora. Até a próxima.

Liz

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2 comentários sobre “Confissão #1: Sobre cheiro de comida numa mesa de escola e risadas ao fundo…

  1. Oi, Liz.
    Lembra de mim? Depois de um período de luto e bastante mudanças, eu resolvi voltar a postar. O “descativando” vai continuar só como um blog pessoal, e as resenhas eu passei para o “Terceiras Impressões”.

    Bom, eu quis vir aqui, exatamente nessa postagem, mesmo depois de tanto tempo, porque quando a li, em Junho de 2015, chorei tanto que acabei nem sabendo o que comentar. Sua história ficou em minha cabeça e acredito que é algo que nunca vou esquecer. Não cheguei a passar por coisas tão terríveis assim, mas sempre fui a “nerd tímida” na escola, o que me fazia um alvo fácil para gozações. Realmente, até hoje, acredito que as coisas que passei são em parte responsáveis por minhas neuroses e sentimentos reprimidos na vida adulta.

    O que eu queria te dizer, mesmo, é para você se sentir abraçada. Você é uma pessoa forte e incrível, com um dom maravilhoso para a escrita e suas postagens me inspiram muito.

    Ah, eu mencionei esse texto em uma resenha no Terceiras Impressões, em uma postagem sobre um livro que fala sobre bullying; espero que não se importe. 🙂

    Beijos.

    Curtido por 1 pessoa

    • Oie! Claro que lembro. Nunca esquecerei, provavelmente, da “Morango” – como te chamo secretamente, rs, por causa do seu primeiro avatar. Você é uma das poucas pessoas que já se importaram com o que eu escrevo e me incentivaram a continuar. Então é isso que eu gostaria de te dizer: você me abraçou faz tempo. Muito obrigada por isso, de verdade.Sério mesmo.

      Sinto muito pelos seu período de Sal. Queria que você se sentisse abraçada também. E que não se esquecesse que o Sal arde e parece ferir ainda mais a pele machucada, mas que ele também faz sarar. Ele cicatriza e deixa a pele mais dura.

      Fico muito feliz que você voltou! E espero que se entregue à escrita por muito tempo. Eu ando meio afastada, e talvez por isso ande me sentido tão perdida. Acho que estou chegando à conclusão de que, afinal, é a ela que eu pertenço. Acho que você também!

      Muito bom ter você por aqui de novo e muito obrigada por me trazer de volta. Fazia um tempo que não vinha à minha Oficina, eu andei por um certo período de Sal também. Mas sinto que já quase estou pronta pra volta.

      Muito Obrigada!

      Ps: EU AMEI O TERCEIRAS INTENÇÕES!!!!

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