Máquina do Tempo Literária #1: A Herança

A Herança

2016-11-10-12-55-52

CAPÍTULO 1:

Fechando a tampa…

          O quarto inteiro cheirava a morte. Morte e silêncio misturados à uma tristeza tão inesperada que poderia beirar a hipocrisia; o que foi de percepção geral sem que ninguém o comentasse. Os familiares do velho Bartolomeu se espalhavam pela casa – cada vez mais lotada com a chegada das pessoas à medida que a notícia do falecimento se alastrava – encomendando discursos pesarosos e lágrimas espalhafatosas de vez em vez.— Grande homem, caráter inigualável – dizia alguma sombra em meio às lágrimas contidas.

          Surgiram outros vários comentários duvidosos e saudosistas sobre a grande nobreza de espírito do velho…Velho… Francamente, seria Bartolomeu Gomes (senhor das terras da fazenda Araguaia – um anacronismo da sociedade moderna) tão velho assim? Qual era mesmo a idade do velho? Ninguém conseguia se lembrar… “Por volta dos 50 ou 60? Mais de 70?…” ouvia-se. O mais curioso é que ninguém parecia ter tido uma grande intimidade com Bartô Gomes (a ponto de nem conseguirem precisar a idade do morto), mas se acaso perguntassem, saberiam dizer o montante da fortuna do pobre diabo até os ínfimos centavos. Que criatura maravilhosa e mercenária é o ser humano!

          Em meio a todos aqueles estranhos, eu – Emanuela das Graças Gomes, como filha única do morto – recebia os pêsames no quarto em que meu pai agora estava sendo velado. Seria, de um modo geral, muito inapropriado se velar um corpo no quarto de dormir; mas este fora um dos pedidos que meu pai fizera antes de morrer. “Quando morrer, quero descansar na minha cama, entre os meus travesseiros, que é o único lugar com paz desse mundo! Só assim terei paciência de receber todos aqueles urubus que virão pra me ver de presunto” e assim o fiz. Não que me agradasse todo aquele espetáculo. Eu vi meu pai morrer, como tantas outras meninas e meninos por este mundo afora; mas o sentimento de perda ainda não me alcançara de todo. Eu sempre estive sozinha; mesmo quando o velho Bartô estava vivo, mesmo antes da doença o consumir, e não seria muito diferente agora. Eu ficara com ele até o fim, cuidara de suas necessidades e tentara lhe proporcionar uma vida mais tranquila. Eu desempenhei meu papel de filha. Não nos amávamos, mas nos acostumamos com a companhia um do outro e à minha dedicação me garantira que saberia ser grato, dando-me a liberdade depois da sua morte. Seria, óbvio, mais complicado se tivesse que administrar todas aquelas terras e plantações; mas meu pai havia deixado claro que jamais deixaria a fazenda para uma mulher e que a mim apenas legaria uma quantia em dinheiro para eu me manter durante alguns meses na capital. Ele me pagara os estudos e minha formação e para nós dois era mais do que suficiente.

          De forma que eu não precisava me preocupar com as terras, as plantações ou o gado e o que seriam deles após a divulgação do testamento. A minha única tarefa final seria suportar com bravura toda a depressão ligada à atmosfera de pós-morte (o que inclui o velório e o enterro), tomando o cuidado de atender a todos os caprichos finais do velho Bartô. E não eram poucos: iam desde a mais ordinária roupa de baixo até a decoração dos quartos e da casa para o seu velório. O velho chegou a já deixar pago uma orquestra de músicos vagabundos para tocar-lhe a marcha fúnebre depois de 13h de morto. ..

          Meu pai tinha mania de números. Dizia com frequência que seu número da sorte era 13, que seu horário favorito do dia era às 14h e 22 minutos exatamente e que a árvore mais bonita da fazenda ficava à quatorze pés da mina d’água que dava para o sul. Em seus delírios de enfermo, sempre pedia para que eu procurasse a roseira de três rosas depois que ele se fosse. Eu assentia pacientemente e chegava à conclusão de que a mente do meu pobre pai era muito criativa.

          E o mais curioso não eram exatamente suas manias, mas o fato dele às seguir religiosamente quase todos os dias em que lhe era possível caminhar na fase final de sua vida. Se agarrava tanto à “árvore mais bonita” (que não passava de uma goiabeira comum…) que ia visitá-la quase todos os dias em seu horário favorito do dia; e o fazia sozinho. Não permitia nem mesmo que alguém se aproximasse do seu local de sossego. Eu sempre o acompanhava até um pouco antes da virada do riachinho e ficava ali, observando enquanto ele seguia trôpego e cambaleante até sua querida árvore. Voltava horas depois com as roupas sujas de terra e muito mal-humorado, mas de certa forma sempre parecia em paz ao sair de lá. Realmente, meu pai tinha as suas manias, mas eu sempre soube reconhecer o bem que aquela caminhada fazia a ele e nunca me indispus em levá-lo para os seus inexplicáveis passeios das 14h22min.

          Enquanto pensava nessas reminiscências, veio oferecer-me seus préstimo ninguém menos que meu Tio Amaro, o irmão mais novo de meu pai. Os dois não se davam desde um incidente passado; quando meu honorável tio – recém saído da faculdade de Administração , formado na cidade do Rio de Janeiro (“Oh, que orgulho para a família”, minha avó tinha mania de repetir…) – passou a tomar conta de uma das criações de gado de meu pai. Pois bem, em menos de seis meses o Doutor Gomes vendeu mais da metade das cabeças e ainda embolsou toda uma enorme quantia sem o conhecimento do irmão. Com a morte de meu pai, contudo, tudo indicava que a fazenda e todas os outros bens seriam legados a ele e isso aparentemente foi o bastante para dar um fim à antiga rixa e fazê-lo vir aqui me cumprimentar.

— Minha querida, sinto muitíssimo a nossa perda!.. – ele sussurrou-me amavelmente, olhando-me nos olhos. Nossa já teria sido muito estranho de se ouvir sem a ênfase oblíqua dada por ele ao pronome, e eu tive que dar uma risadinha sarcástica que ele interpretou de outra maneira e, dirigindo-me um sorriso seboso cheio de dentes um pouco amarelados, continuou: — Entendo que de certa forma seja um alívio para a senhorita…Devo dizer, ele já estava velho e sofrendo e, claro, a senhorita devia estar desgastada de ter de prestar os cuidados que ele necessitava. – “Que homem horroroso!”, pensei, mas apenas respondi “obrigada por ter vindo, fique a vontade” e saí. Não suportava mais aquele quarto e aquelas pessoas. O cansaço começava a dominar-me e eu estava com vontade de expulsar a todos – aos berros se fosse necessário – só para me deixarem sozinha com meus pensamentos.

          Nesse instante vi a pobre Ana, nossa querida governanta e minha segunda mãe, sentada à janela (se parecendo, mais do que nunca, com um urubu empalhado vestida toda de preto como estava); o terço em uma das mãos, a pequena caixinha de joias apoiada no colo (único presente dado a ela pelo seu agora falecido patrão) e lágrimas silenciosas e incessantes escorrendo rosto abaixo. Ana tinha muito apreço por meu pai. Cheguei a considerar, várias vezes durante a minha vida, que ela o amava intensamente. Naquele momento, vendo a imagem da desolação em sua figura junto à janela ensolarada, eu tive certeza. Dedicara a vida toda àquela casa e a seus ocupantes. Gostara muito de minha mãe e sofrera muito com a sua morte; me criou com todo amor e carinho que seria capaz de ofertar a alguém e entregara sua vida e trabalho em função do bem-estar de meu pai. Sim, ela o amara e também a tudo que ele amara; e agora ele se fora e ela estava agonizando de dor. Frente à tristeza dela, meus olhos finalmente se encheram de água… Ele se fora, afinal, e que sensação estranha que ficou! Fiquei esperando o alívio chegar, a ansiedade com a minha tão sonhada liberdade, mas não vieram…

— Minha querida, vá se deitar. Não fique aqui perto dessa gente mesquinha, vai te fazer mal. –- falhei-lhe no tom mais brando que consegui. –- Vá e eu te chamo quando estiver na hora de irmos para o cemitério. – Sem palavra, ela aquiesceu, levantando-se, e seguiu em direção ao corredor norte onde ficava o seu quarto. Eu, farta de olhar para aqueles estranhos hipócritas, decidi por seguir para o meu próprio quarto.

          Ao bater a porta de madeira senti o universo se silenciar a minha volta. Respirei fundo e fui direto para a minha cama, onde me deitei sem tirar os sapatos. Me indaguei brevemente se seria correto deixar sem anfitrião todas aquelas pessoas que vieram, e depois decidi que pouco importava. “Eles não estão nem um pouco preocupados em quem os está recepcionando, já que a comida e a bebida estão servidas nas mesas…”. Essa observação me fez rir , parecia que eu estava dando uma festa! Eu ali, recepcionando os convidados, os comes e bebes sendo servidos e a casa toda arrumada e decorada a contento…Como em uma festa!! Uma terrível e lúgubre festa…Que engraçado…Tinha até música…!

          Música?! De onde estava vindo a música?…Abri os olhos um pouco tonta: eu havia adormecido e já deviam ter se passado algumas horas porque a música que escutava era a marcha fúnebre que a orquestra contratada pelo meu pai estava tocando. O que significava que eu devia me levantar depressa, pois estava na hora de me preparar para ir ao cemitério enterrar o corpo de meu velho pai. Ao menos este desejo fora conveniente: um velório curto. Treze horas depois de ser constatado o óbito, uma orquestra chegaria à casa e começaria a tocar a marcha fúnebre. Esta seria a deixa para puxar a comitiva em direção ao cemitério local, que felizmente não é muito longe. Graças aos Céus estava tudo terminando. Quatro musculosos peões carregariam o caixão de Bartô Gomes e o pousariam em uma bonita lápide de mármore no único cemitério da cidade de Fonte Velha. E depois disso só teria que aguardar a leitura do testamento e estaria, enfim, tudo acabado. Assim, saí apressadamente do quarto em direção ao de Ana para avisá-la. Ela estava à porta, trancando-a, quando me aproximei. Olhos muito inchados e vermelhos me fitaram sem vacilar. Ela estava pronta, recobrara a compostura e estava me demonstrando uma bravura que nunca pensei ter a oportunidade de ver naqueles olhos mansos. – Vamos, minha menina, vamos – foi a única coisa que ela disse ao tomar a dianteira em direção à sala, onde todos os remanescentes (um número muito menor de pessoas do que quando fui me deitar) nos esperavam.

         Na verdade, agora o grupo era composto em sua maioria por trabalhadores da fazenda e os camponeses dos arredores da mesma. Este fato me surpreendeu e, de muitas maneiras diferentes, engrandeceu aquela romaria e a memória de meu pai incrivelmente. Manifestações reais de respeito e solidariedade preencheram cada momento daquele enterro; vindas de pessoas que receberam do falecido apenas um salário, talvez nem sempre justo, pelo seus trabalhos e mais nada. Nada além disso, mais nenhuma outra regalia. E todos eles estavam ali, prestando verdadeiramente sua última homenagem a um sujeito que talvez pudesse ter feito mais por eles, mas que não o quis.

          Eu mal ouvi as palavras de adeus e consolação do padre. Meus ouvidos pareciam abafados por alguma coisa, por um silêncio tão enorme que me impedia de escutar direito qualquer coisa que seria dita ou cantada além dele. Eu estava entorpecida, arraigada à uma lembrança de nada nem ninguém. Que coisa estranha essa sensação, como um misto de vazio e dormência. Eu nunca pensei que fosse me sentir assim com a morte dele e um novo sentimento começou a surgir dentro de mim: o medo. O que viria depois que o entorpecimento fosse embora? Eu sentiria a perda daquele homem cujos dois anos finais de vida estivem sob o meu encargo? Eu sentiria a falta daquele sorriso que a mim fora restringido à primeira infância? Eu sentiria amor por aquela débil figura paterna? …

          Nesse instante percebi que todos olhavam para mim. Ana, ao meu lado, parecia tão inumanamente quebrável – com seu buquezinho de flores do campo em uma mão e o fiel terço na outra – que quase não senti o toque de sua mão no meu braço, chamando-me. Percebi que iam fechar o caixão e que era hora de jogar as flores, de forma que me adiantei e joguei os botões de rosa que cobriram a superfície lisa do mogno. Em seguida vieram Ana e depois todos os outros. Os mesmos volumosos peões que trouxeram o caixão se encarregaram de fechar a pesada tampa. Vários camponeses vieram me dar as condolências e, terminado este último ritual, fomos Ana e eu – braços dados, cabeças baixas – pelo caminho escuro de volta à Casa Grande, onde o resto dos criados já começava a arrumar tudo para o dia seguinte; quando os familiares mais adoravelmente mesquinhos de Bartolomeu Gomes viriam para a leitura do testamento.


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2 comentários sobre “Máquina do Tempo Literária #1: A Herança

    • ❤ Pois é, até eu me surpreendi! hahha Mas depois, pensei que não havia sentido pra não colocar a carinha lindja de Herança no sol!!!!! \o rs Muito obrigada, Carol, por nunca desistir de me cobrar esses livros! Um dia eu chego lá! Beijão!!!

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