Nas ladeiras de pedra sabão…

A gente sempre tem um momento na vida em que há um estalo e você sente que sabe que terá que deixar ir algo que segurou firme em suas mãos por muito tempo. Sabe? Quando você sente que… Simplesmente terá que deixar ir algo que não cabe mais na sua vida, por mais querido que seja? Pode ser um namorado, um emprego, uma relação com um amigo que, por alguma razão do destino, não dá mais.  Isso aconteceu comigo em 2015. No meu caso, eu respirei fundo e me despedi de um sonho. E posso ser sincera com vocês? Senti aquela tristeza solitária e compreensiva, como se, enfim, estivesse entendendo que era a hora de deixar minha infância para trás. Entender que aquele sonho provavelmente não era mais pra mim, não era mais meu sonho, foi uma das coisas mais difíceis e solitárias que já fiz. Como Wendy, ao pegar o navio de volta a Londres.  Meu “navio do Capitão Gancho” era feito em pedras sabão, pois ele é todinho a cidade de Ouro Preto.

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Descrição da imagem: A imagem mostra uma vista das casas ao redor do museu Tiradentes. Em primeiro plano, estão as pontas da amurada, trabalhadas em pedra sabão também na forma de um “pêssego invertido”, e hachurado. Em segundo plano, descendentes da direita para esquerda, formando a rua. E, ao fundo, estão as casas de arquitetura colonial, brancas de telhados com telhas cor de tijolo e portas e janelas em azul. A foto está num filtro que parece que foi desenhada.

Em Outubro do ano 2015, eu fui à Ouro Preto. A Reunião da Sociedade Astronômica Brasileira (SAB) desse ano foi lá e fui apresentar à comunidade acadêmica o trabalho apresentado na minha monografia. Eu sempre quis ir à Ouro Preto! Tenho uma queda grande por cidades históricas e raramente na vida saí do estado do Rio, onde nasci e moro, então estava super empolgada. Ou achava que deveria estar, sei lá. Na verdade, eu sou muito “caxias” e, em geral, quando vou a um evento acadêmico, eu realmente participo deste o tempo inteiro. Mesmo quando as palestras e sessões não são especificamente da minha área, em geral eu assisto. Sempre é uma oportunidade de aprender algo novo, né?

 

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Descrição da imagem: A foto mostra o topo de uma rua descendente em pedra sabão, ladeada pelas casinhas coloniais. Carros descem a rua, primeiro um azul, bem no início (topo da rua), perto do cruzamento onde a foto foi tirada e outro, mais avermelhado, distante, já na descida acentuada da rua. Ao fundo, os morros de casinhas e árvores da cidade de Ouro Preto. A foto está com um filtro que parece que os traços foram desenhados.

Mas, dessa vez, foi meio diferente.  No último dia, quando haveria a reunião dos grupos de pesquisa — dos quais eu não fazia parte mais — eu acabei saindo. Eu sabia que poderia ficar e assistir aos debates que durante quatro anos identifiquei como “da minha área” e conviver mais com a expertise daquelas pessoas que, acreditei por um tempo, seriam de minha convivência cotidiana em um futuro próximo. Mas, num ímpeto, saí. As cores se bagunçaram de forma muito intensa dentro de mim (lembram desse texto?) e eu saí dali. Eu subitamente soube que eu não deveria mais estar ali. Simplesmente desci as escadas e me impeli nas ruas estreitas e nostálgicas de Ouro Preto.

Eu não sabia ainda mas as ladeiras de pedra sabão guardariam para sempre a despedida da minha infância.

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Descrição da foto: Mais uma foto da amurada do Museu Tiradentes, agora voltando-se para o outro lado da praça. No outro lado da rua, mais casas e restaurantes de arquitetura colonial. As portas e janelas se alternam nas cores azul e amarelo. Ao fundo, as paredes do Observatório de Ouro Preto são sucedidas pela visão dos morros em verde da cidade. A foto está com um filtro que faz parecer que os traços estão desenhados.

 

Andar por aquela cidade sozinha me fez perceber o quão grande e poderoso é o tempo. Todas aquelas casas, igrejas a perder de vista, o observatório onde, na minha primeira noite na cidade, eu assistira ao magnífico eclipse total da lua, os ladrilhos no chão. Tudo retomava ao poder do tempo e sua majestade. Andei muito, subi e desci inúmeras ladeiras, fui ao museu Tiradentes, à casa de Claudio Manoel da Costa, andei pelas ruelas e feirinhas. Por fim, voltei ao centro mais uma vez e me sentei no obelisco, pensando em tudo que vi e ouvi nos últimos dias e horas, tentando entender o que era aquela sensação que borbulhava dentro de mim. Absorvendo passado e futuro, da cidade e meus. Ao meu redor, turistas e moradores andavam, tirando fotos com smartfones e câmeras de última geração sob aquelas pedras gastas pelo andar de inúmeras marcas dos anos. E o Tempo começou a sussurrar no meu ouvido, me mostrando com carinho o que Ele é capaz de fazer com  as coisas, as memórias, os sorrisos e as pessoas.

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Descrição da foto: Obelisco em pedra no centro da praça Tiradentes, em Ouro preto. Nas escadas que levam ao monumento, abaixo do mesmo, algumas pessoas estão sentadas, mexendo em celulares. Ao fundo do monumento está o Museu Tiradentes, uma imensa construção colonial em branco e pedra. Na lateral, estão as casas e restaurantes de arquitetura colonial.

E em como ele me moldou. Eu, que sempre me vangloriei de ser quase imune aos seus caprichos, de desafiar sempre seus anseios e destino. Me senti pequena, vulnerável, sozinha. Ponderei se deveria voltar ao congresso, à astrofísica, às minhas estrelinhas, tão minhas que sua companhia era confortável e simples. Foram minhas, meu sonho e devir, por tanto tempo! Por que fora embora assim, como se não me pertencessem mais?

E percebi que, não, talvez eu não mais voltasse para lá. Que havia, dentro de mim, algo que se despediu daquelas pessoas, daqueles devir, daqueles olhares de ver o mundo que, para mim, não mais se pareciam com os meus.

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Descrição da imagem: Mas uma rua descendente em pedra-sabão. No primeiro plano, no lado direito da foto, está uma placa de “proibido estacionar”. No final da rua, lá em baixo em segundo plano, está um marco de procissão, na forma de uma portal com paredes brancas, umbral amarelo e porta vermelha. Ladeando a rua, estão casas em arquitetura colonial e árvores cujas folhagens emolduram um céu muito azul e limpo. Ao fundo, em terceiro plano, estão morros com suas árvores verdes e casinhas coloridas brilhando ao sol.

E senti uma saudade imensa, porque por toda a minha vida até ali, estar ali, com aquelas pessoas, fazendo o meu trabalho com as minhas estrelinhas era o que me fazia ser eu. Era tudo que eu queria. E, naquele momento, percebi que talvez não fosse mais.

Vocês percebem? Nas ladeiras de pedra sabão, eu me despedi de uma parte de mim. A guardei com carinho na minha alma e, ao mesmo tempo, a deixei ir. E que coisa mais difícil, gente. Que coisa mais avassaladora é ter que se despedir de um sonho, de um devir.

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Descrição da imagem: A imagem mostra o marco da procissão, na forma de uma parede branca delimitada por um umbral amarelo, com uma porta vermelha ao centro também de umbral amarelo. A rua se divide no marco, descendo para esquerda e para direita a partir dele, com as pedras sabão do chão formando desenhos que parecem escamas no chão, à luz do sol. Em segundo plano, estão as inúmeras casinhas coloridas da cidade, todas em arquitetura colonial, e atrás, os morros em verde e cor.

Quando entrei no ônibus para voltar e, pela janela, as torres e torrezinhas das igrejas iam ficando menores, e as cores das casinhas crescentes em ladrilhos intermináveis iam se apagando, deu uma dorzinha no peito, uma sensação de solidão e nostalgia que eu não sei explicar.

“Adeus”, eu disse em  pensamento. Não me dirigia à cidade, mas sim para mim mesma, à pequena Bi que acenava em despedida, sozinha, chorosa, feliz e triste, lá do Centro de Convenções em que tinha conseguido mostrar aos seus pares a concretização de seu sonho de uma vida inteira e que, súbito e chocantemente, acabara por decidir ficar lá. Tive um pouquinho de vontade de chorar, confesso. Mas, em troca, dei um sorrisinho de amor e gratidão. Ela me guiara até ali. Ela me afagara nos momentos de incerteza, desamparo e dor. Aquele sonho, de estudar as estrelas para todo a minha vida, me mantivera viva por todo esse caminho. Então tentei sorrir, mesmo que timidamente. Porque, por mais que fosse um pouco triste (e um pouco doce), aquilo não era só tristeza, não.

Era o futuro e a sensação de que ele tinha acabado de chegar. Bem ali, nas ladeiras de pedra sabão da cidade de Ouro Preto.

Liz

“Poeme-se”

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Olá!!!

Acabei de perceber que o facebook tem um lugar para colocar sua “biografia”, onde você “descreve quem você é” em 101 caracteres…

Mas vocês se deram conta do quão louco é isso? Quem, realmente, se descreve em 101 caracteres? Será que alguém consegue resumir-se em 101 caracteres? Continuar lendo

Máquina do Tempo Literária #1: A Herança

A Herança

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CAPÍTULO 1:

Fechando a tampa…

          O quarto inteiro cheirava a morte. Morte e silêncio misturados à uma tristeza tão inesperada que poderia beirar a hipocrisia; o que foi de percepção geral sem que ninguém o comentasse. Os familiares do velho Bartolomeu se espalhavam pela casa – cada vez mais lotada com a chegada das pessoas à medida que a notícia do falecimento se alastrava – encomendando discursos pesarosos e lágrimas espalhafatosas de vez em vez. Continuar lendo

Destrancando o baú: máquina do tempo literária

Gente bonita do kokoro!

Deu a louca na Liz e resolvi liberar algumas das histórias que já escrevi. São coisas passadas, algumas beeeeeem distantes. O objetivo nem é “publicar” essas histórias como algo sensacional. Até porque, nem estão “ohmeudeusoquecoisabemescrita” r tal. rs Mas sim que elas possam emocionar alguém aí, quem sabe, do jeito que me emocionaram. E me mostram uma coisa encantadora: o tempo. Como eu mudei, amadureci, me transformei e como a minha escrita — tão minha, gente! Tão espelho meu, as minhas histórias…rs — abraçou o tempo.

Essa experiência, portanto, é a minha “máquina do tempo” literária. Tomara que alguém goste aí!!!! ❤

A primeira história que vou liberar é um amorzinho chamado “A Herança”. Vou tentar criar uma página só pra ela, porque é maior do que moralmente é permitido que um post seja! hahaha

Edit: Deus do céu, como cria uma página para isso aquiiii????? hahahaha Enquanto eu não consigo resolver isso, vou publicando em capítulos, ok? Quem quiser, pode conferir co capítulo 1 aqui

Beijo, gente!!!

 

O que você vê? — Pontilismo muy loco

Oi, gente!!!

Quanto tempo! Como vão as vidas docês? Por aqui tá tudo meio merda, para falar a verdade… Foi mal a sinceridade, mas eu não ia mentir para vocês aqui.

Então, eu ando sumida porque estou na correria de estudar com o pouco tempo de sobra que tenho para conseguir entrar no mestrado. Não vou entrar em detalhes sobre isso agora, porque seria um daqueles posts looooooooongooooooooos que vocês sabem que eu faço quando as caraminhólas tomam conta da minha mente e, para além disso, é algo que está transformando toda a minha vida e minha escolha de devir. Acrescentando o fato de eu ter recebido um resultado negativo ontem sobre uma das duas provas que fiz, vocês podem imaginar que não estou muito felizinha para falar sobre isso diretamente agora.

Maaaaaaaaaaaaaaas o post de hoje acaba derivando desse contexto: a maneira que encontrei de estudar com a correria do dia a dia foi gravar a leitura dos artigos no tablet e ficar escutando o áudio enquanto faço outras coisas, como tarefas de casa ou quando espero meu irmão sair da escola. No tempo livre, até dá para escutar me concentrando mais e, para isso, eu preciso desenhar. Continuar lendo

Gênesis

Aprender algo novo é entender que algo nasceu e foi criado dentro da sua mente, te transformando em uma nova criatura.

Talvez seja por isso que eu acabo precisando de papel e caneta para extravasar esses desconexos processos de ruptura e transformação dentro de mim, quando estou aprendendo algo e transformando esse aprendizado em alguma coisa minha.

Esse foi o resultado da bateria de artigos dessa madrugada. Só não me pergunte ao certo o que eu fiz. Rs Só sei que tem a ver com sementes florescendo e me transformando… É assim que me sinto quando estudo sobre Educação. E sei tbm que não sou nenhuma artista, podem deixar. Só queria dizer pra vcs o quão nova estou.

Se me encontrarem na rua, deixem que eu me apresente de novo. Talvez nem me reconheçam.

Rs

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Beijo, gente.

Liz

Confissão #2: Os dedos em riste e a premissa da gentileza

********** Abrindo as portas do confessionário ***********

Deixa eu contar uma coisa pra você, que adora apontar o dedo pras mães na rua, pros colegas de faculdade, pros vizinhos. Não vai ser uma historinha feliz, então se você está atrás de felicidade de comercial de margarina e não aguenta uma dose de realidade bruta, não diluída, então caia fora. Hoje a Oficina não está para o seu gosto, não.

Ontem, mais uma vez, meu menino surtou. Ele tem TEA e quando surta, como é comum aos autistas clássicos, usa da autoagressão e agressão alheia para extravasar essa carga de energia. Não me pergunte o que causa os surtos, porque ninguém sabe. Ele só começa: tira os óculos, o casaco e larga os bonecos que segura, em todo e qualquer momento, tirando o surto, nas mãos. É um ritual simbólico para mim, agora que penso nisso… Para ter com violência para consigo e para com o outro, ele meio que abandona o seu “eu” consciente. Meio que deixa de ser o meu Shippo e passa a ser um conglomerado de violência. Para consigo e tudo o que ele considera parte de si. Ou seja, para comigo também.

Depois de horas naquela existência confusa e bruta, depois de lutar para enfiá-lo ainda a nos bater embaixo da água gelada, depois de machucar o meu pulso (já lesionado pela tendinite), depois de muito gelo e lágrimas, depois de se acalmar e seu olhar voltar a clarear, ele pediu pra comprar pão. O incidente, a dor, a angústia, a violência parecem ter ido parar num plano semiescondido da sua mente. Mesmo que ele tenha se batido tão forte nos lados da cabeça que eu tive que aplicar quase uma hora de gelo depois, mesmo que eu não consiga levantar os braços direito de tão machucados que estão. Mesmo que temporariamente, os fantasmas doloridos de sua mente se afastaram e eis que surge uma preocupação real: precisamos de pão.

Olhei para a bagunça ardida em que eu estava e pedi para tomar banho primeiro. A água fria caía nos arranhões no meu braço e eu sentia a farpada funda da dor, como um choquinho agudo. Tive certa dificuldade de segurar o sabonete e me dei conta de que precisaria aplicar um pouco de gelo ali também. Chorei, mais uma vez. Dessa vez, não da dor mas do vazio. Tentei rezar, em busca de algum significado que me preenchesse.

“Senhor Deus dos desgraçados…” — comecei, de novo. Mas respirei fundo e parei. O que eu pediria, que já não pedi? Me aquietei de novo no vazio, lembrando da hora que se passou. Sabem o que é estranho? Eu nunca havia começado uma oração assim. As palavras saíram da minha mente, como se estivessem se libertando de correntes pesadas, enquanto eu tentava conter meu irmão na cama e ele golpeava meus braços sem cessar. Me vi fechando os olhos e rezando baixinho:

“Senhor Deus dos desgraçados, por favor, ajude meu irmão. Por favor, ajude o meu irmão…!”

Uma, duas, três, incontáveis vezes essas frases saíram pequenas e trêmulas dos meus lábios. E percebi, depois, no banho, o porquê de elas terem saído assim, livres, de dentro de mim. Eu percebi que não era ao meu irmão que me referira naquela hora. Que, quando rezei pelo Deus que olhava os “desgraçados”, eu rezei por mim. Era assim que eu me sentia: desgraçada, no sentido real — sem graças, sem forças, sem nada. Saí do banho com essa nova perspectiva de mim mesma. Sou uma pessoa orgulhosa, então admitir que me sentia assim, abandonada de tudo, deveria ser um ato dolorido. Ao invés disso, me aquietou. Não era nada mais do que isso, entende? Eu não precisava mais fingir para mim mesma que eu me sentia maior do que isso; que era real a ideia de que eu sou melhor do que a sensação de abandono. Não sou, é óbvio agora.

Saí procurando por uma camisa de manga para vestir, de forma a ocultar os machucados do meu braço. Estava calor e percebi que ouviria o cometário bem humorado dos vizinhos quando passasse: “Eita, menina, que frio é esse que você está sentindo?!”. Seria acompanhado de uma risada de bom humor, como a selar a boa relação comunitária entre nós. E eu sorriria e daria de ombros, como quem diz:”ah, mas eu gosto assim mesmo” e seguiria em frente. Mais um início de noite na vida cotidiana. Passei 7 anos na universidade carregando casacos mesmo nos dias mais quentes. Às vezes, quando o calor começava a ficar insuportável, eu tirava para colocá-lo novamente logo depois; quando eu sentia os olhares nas machas roxas e arranhões em meus braços. Em resposta às brincadeiras em relação ao meu suposto frio, eu sorria e dava de ombros. Com o tempo, elas tomavam corpo de impaciência, como se o fato de usar casaco no calor do Rio de Janeiro irritasse os meus colegas. E eu meio que concordava com eles, talvez porque, lá no fundo, eu estivesse irritada também. Então, acreditava, a reação deles e sua brincadeiras não me afetavam, em absoluto. Mas percebi ontem que, na verdade, secretamente, eu meio que me ressentia delas. Mesmo quando eu explicava a situação, as pessoas só faziam uma cara esquisita — de pena/repulsa — e mudavam rapidamente de assunto. E percebi, agora, que eu me ressentia desse abandono.

Passei 7 anos na faculdade, quase cinco deles no Observatório também, e todos adoravam reclamar ou brincar do fato de que eu, não raro, caía no sono em cima do teclado do computador enquanto trabalhava na minha pesquisa. “Vai dormir em casa, menina!”, me acordavam. Ninguém nunca se perguntou que, talvez, eu não pudesse dormir em casa. Que minhas horas de sono eram usadas para estudar a matéria que eu não conseguia estudar durante os finais de semana e dias livres, porque meu irmão não deixava. Passei 7 anos na universidade arrastando meus problemas de saúde e tendo que ouvir, sorrindo e dando de ombros, meus colegas e professores dizendo que “você precisa se cuidar direito, vai acabar morrendo” sem que percebessem que, no meu caso, ou era me dedicar aos tratamentos ou ir pra faculdade porque na metade do dia em que eu não estava em aula, eu estava em casa cuidando do meu irmão para minha mãe fazer a faculdade dela. Nos dois últimos semestres, eu mal conseguia andar devido às dores na coluna e ainda assim, engolia a dor e ia para a UERJ. Mesmo assim, quando tive que fazer a integralização, ouvi professores me falando que eu “tinha potencial mas não me esforçava o suficiente” e “se você quisesse se tratar direito, já teria resolvido os seus problemas” e, o clássico, “mas o seu irmão não é responsabilidade sua, é isso que você não quer entender”.

“Senhor Deus dos desgraçados…”

Entre as brigas dentro de casa para que eu conseguisse, ao menos, IR às aulas (obtendo, no processo, algumas reprovações por falta que andam dificultando muito a minha vida nos processos seletivos para o mestrado), até a batalha que foi para eu conseguir fazer a pesquisa — exigindo tempo que minha mãe e minha irmã pareciam não poder abrir mão, mas que eu, aparentemente, podia; tudo que se via, fora dos muros da minha casa, era uma menina sempre sonolenta, doente, de casaco, parecendo irritar as pessoas por estar em um lugar que, obviamente, não deveria estar porque “não se esforçava o suficiente”. Pouco importava que meu coeficiente de rendimento fosse muito acima da média dos alunos de Física, que minha pesquisa fosse altamente elogiada e condecorada dentro do ON, que eu tivesse que passar meus finais de semana no Observatório para dar conta. Tudo que eu tinha, para justificar o meu orgulho e me convencer que eu era uma “agraciada”, era sorrir e dar de ombros diante do franco abandono. Porque meu orgulho não permitira, de jeito nenhum, que me vissem como uma “coitada”.

Mas ontem percebi minha estupidez. Os dedos, firmes e cruéis, sempre estiveram em riste. E o que sobrou, afinal? Uma mulher de 25 anos que mal conseguia levantar os braços machucados para conter um garoto muito maior e mais forte que ela. Uma mulher que se deu conta de que não adianta mais usar casacos e sorrir da falta de gentileza alheia.

“Senhor Deus dos desgraçados…”

Entendi que, sim, não tenho graças. Os dedos em riste sempre estarão lá, então por que não apontá-los para a verdade? Desisti da camisa de manga. Vesti uma regata branca e, para quem quisesse ver, estavam as marcas no meu braço e minha cara inchada de chorar. Deixe que apontem. Não esconder mais foi o maior gesto de gentileza que tive comigo mesma desde que nasci.

Então, gente, um pedido a quem estiver lendo isso: há sempre uma mãe que suspira, cansada e desamparada, na rua. Há sempre um vizinho que anda irritado, um estranho no trem cantando baixinho para si mesmo algum conforto em forma de canção. Mesmo correndo o risco de parecer arrogante, deixe-me dizer isso a vocês: vocês não sabem a merda que a vida pode ser. Esqueçam os comerciais e vídeos de formatura. A felicidade, para muita gente, não chega a nem perto disso. Para muita gente, terminar o dia bem significa que seu filho foi ele mesmo por um dia inteiro. E, mesmo assim, amanhã é sempre um novo dia.

Por isso, vale a máxima: Você não sabe pelo que as pessoas passam no seu dia a dia. Seja gentil, sempre.

Até.

*******As portas do confessionário estão se fechando agora ********