Minha decisão

Fazia um tempo que eu não me atrevia

A pensar de novo em você…

Mas acontece que o destino me deu essa música e…

O seu nome apareceu no meu olho hoje.

Me perdoa, mas a culpa não é minha

é da Tiê…

Eu sei que a gente quase já conversou a respeito;

E que você sabe que, mesmo com a dor,

foi você quem me deu essas batidas rápidas do meu coração.

Mas sempre que vejo os seus olhos, eu lembro deles

No dia em que te dei o último “não”‘.

E por isso eu queria te dizer…

Bem, eu não sei exatamente o quê…

“Passado o passado, acho que eu mesma

Esqueci o tom.”

Da primeira vez, foi você que foi para lá.

Naquela tempo, eu senti o ar saindo, devagar

E eu resolvi me deixar sufocar naquela despedida torta

num ponto de ônibus.

E me afoguei, devagarinho, porque você não era mais meu.

E eu me forcei a mudar de direção

Porque, só de te olhar, o ar me escapava mais e mais.

E eu resolvi que iria para lá,

para um mundo longe do teu.

Da segunda vez, quando você me procurou,

Quem fingiu que não estava ali

fui eu.

Eu sei, eu sei…

Que parecia inaceitável, a minha decisão.

“Me desculpa que eu não fui sua namorada”,

pois eu ainda estava atordoada, sentida, desconfiada…

O ar nunca mais veio, então.

E mesmo para sempre afogada,

a gente meio que tem a obrigação de saber

seguir em frente.

Só me perdoa pelas nossas lágrimas derramadas,

quando eu decidi fechar essa história.

E só lembrar de você quando

o ar falta e a música embala

o destino

da minha memória.

 

Beijo roubado em segredo

Não era Outono….

Era só uma tarde de outubro,

depois de uma prova de física,

depois de um mês conturbado,

depois de um tempo de coração congelado no inverno

da vida.

Mas estava tudo meio gelado, não estava?

Parecia que o Sol brincava de Outono,

os raios se espreguiçavam,

longos, descarnados e preguiçosos,

naquele ponto mal feito de ônibus.

E na hora da despedida,

você me deu um beijo — roubado?

como a fazer em segredo,

(ou o ladrão seria eu?… ). 

E eu tive um pouco de medo,

porque você, que parecia que nunca olharia para mim,

sorriu.

“Esse era o  meu ônibus”, eu te lembrei;

enquanto o veículo arrancava em partida

e o  seu sorriso se abria contra o meu rosto,

livre como se nunca antes tivesse sido solto,

como se a primavera chegasse, enfim.

E depois de quase nove anos,

desse beijo roubado (em segredo)

você continua a me beijar sorrindo,

como a saber o quanto eu te admiro

Com amor…

O velho texto batido

Depois de tanto tempo, ficara difícil encontrá-lo.

 E se tornara mais fácil fingir ele que ele só existia em aniversários.

Nada havia sobrado entre os dois, só um bocado de confusão dentro dele e dela.

Ela foi encontrar-se com seu grupo de amigos, sem saber que iria vê-lo…

E quando o viu, não sabia como se comportar.

“Sorria, brinque e não se aproxime”,

sua cabeça gritava em picos de consciência.

Mas não pular de precipício em precipício é mais difícil do que parece…

Quando seu corpo não tem outra memória a recorrer

além de saltar.

E enquanto todos comiam, fraternalemente ao redor de uma mesa

na praça de alimentação do velho Carioca,

E tudo parecia pairar em um ponto de equilíbrio estranhamente falso,

Eis que um mero comentário os envenena

E os condena ao velho texto batido,

de volta, mais uma vez, ao rancor.

Discutem infantilmente sobre questões sem importância.

E se esquecem que não são mais as crianças de anos atrás.

Ela olha para os amigos que os encaram,

constrangidos e estupefatos

e se sente uma imbecil.

Respira fundo, lutando contra as batidas traíras que lhe doíam o peito.

Cutucando as velhas feridas do seu coração,

Repetindo, como num disco riscado, a mesma canção de despedida na mente,

Reabrindo as lembranças mesquinhas dos amantes mal amados.

E encara com coragem o olhar dele, direto e sem filtro

para se lembrar de nunca ter uma recaída;

para nunca mais deixar de enxergar o invisível;

para parar de  colocá-lo nas rimas pequenas

de poemas desajeitados,

para não se deixar esquecer

Que ela seguiu adiante, anos atrás, mesmo querendo voltar.

Porque não valia a pena.

Mesmo se perguntando — talvez pela milésima vez

Se o que tinha permanecido ali

não era apenas

O ócio de guardar tudo aquilo

Nesse velho texto batido

dos amores mal vividos.

Eu só quero amar…!

É domingo, mas não estou no maracanã.

Estou no centro da minha família, em uma casa com uma palmeira alta e borboletas voando,

onde o almoço é servido tarde

e os primos se  aglomeram no quintal.

Pegam-se os baldes e o sabão em pó,

armam-se as crianças de vassouras e esfregões.

E enquanto o Síndico canta, no rádio alto,

as crianças brincam de lavar a varanda,

escorregando nos refrões:

E sai coreografia, e as risadas se multiplicam, e as vassouras viram microfone.

E cantamos como se não trocássemos esse momento por nada nem ninguém.

Porque “A semana inteira, nós ficamos esfregando,

pra tudo ficar limpo,

o chão ensaboando,

Porque tudo que queremos,

é esfregar e esfregar e esfregar!”

E as gargalhadas infantis explodem em uníssono.

E sorrio, encantada,

Porque os amo;

Porque eu os quero bem.

Porque, naquela tarde de domingo, não quero dinheiro;

Ou ser a mais renomada cientista do mundo,

ou casar e ter muitos filhos.

Tudo que eu quero, está no sorriso

do menino mais encantador que existe

meu meio-irmão, meu primo e meu amigo

que, bancando o rock star ao meu lado,

me lembra que tudo que uma pessoa pode querer na vida

é amar.

Que comece a temporada…

A madrugada chega e ela está deitada,

olhando para o passado.

E como que estivessem com as mãos entrelaçadas,

ela olha para o lado, e o visor do celular está aceso.

“Sonhei com você hoje… Um sonho bom.”

E, lembrando da última conversa ao telefone,

fecha os olhos para voltar.

Que comece a temporada, onde tudo é certo e errado…

Onde se pode voltar ao passado

E ele rompe através do silêncio

tudo o que resta

tudo que escondeu

tudo que fez parte do seu “eu”

que habita, fundo, em algum abismo…

Que comece a temporada,

onde tudo é certo e errado

onde os deja vú se tornam pinturas

e as pinturas, sonhos

e os sonhos, reais

E a realidade,

“nós”.

“Se eu fosse jovem, você fugiria da cidade das Verdades de novo? Comigo?

Enterraria seus sonhos debaixo da terra

e viveria no submundo comigo?

Que comece a temporada, então… Até eu acordar.”

Olho para chuva que não quer cessar.

Olho para a chuva que não quer cessar…

Fria, caindo para limpar o tédio daquele céu cinzento e mudo.

Tiro a mochila das costas, guardo o celular.

E saio para me banhar na água que cai, alegrando o espírito do mundo.

Olhem para ela:

Uniforme todo molhado, cabelo escorrido, jeans grudando nas pernas,

pulando na chuva com rosto para o alto, rodando sem sair do lugar.

E olho para o lado e me surge um sorriso no rosto.

Porque você, todo encharcado, sorri através da cortina de água.

E olha para mim;

e vem em minha direção;

e me abraça;

e encosta a boca no meu ouvido;

e diz

“Você é linda, sabia?!”

E olho para a chuva que não quer cessar

e percebo que ela me trouxe um amor…

Voltamos a viver como a dez anos atrás?

Ela só tinha 16….

E do lado de fora, a noite caia pesada pelas janelas do ônibus, de volta para casa.

A última visita técnica, a última vez que viajava com seus amigos meteorologistas

que sorrindo, jogavam  cartas, agrupados, no fundo do ônibus.

Combinavam, entre rodadas de sueca, passeios em grupo que nunca se realizariam.

E ao fundo de tudo, a Legião começou a tocar do rádio, no teto.

Uma voz do além, que embalava a visão das estrelas tomando conta da paisagem escura lá fora

e dos rostos tão familiares meio obscurecidos pela meia luz do corredor.

“Vamos sair, mas não temos mais dinheiro”, um deles parecia dizer

“Porque em breve todos estaremos procurando emprego”

O  coração aperta um pouco, ao perceber que a juventude acabaria ali.

Que os “Bom dia!!!” animados na escada da Torre de Meteorologia acabavam ali.

Que as manhãs com todos eles acabavam ali.

Ela olha para o rosto de cada um, esperando lembrar deles para sempre.

E mentaliza seus nomes, um a um, numa oração de felicidade.

Se perguntando, se daqui a dez anos, eles gostariam de voltar a esse momento, no fundo do ônibus,

Voltando a viver como a dez anos atrás.