Escolha a “BONITA”!

Gente, acabou o períodooooooooooooooo!!!!! Momento para dancinha do alívio:

\o/\o/\o/

Nem acredito, gente! Então, vamos ao que interessa: Uma matéria do site Hypeness me fez revirar a velha piscina de memórias acerca dos esteriótipos de beleza feminina e como nós, mulheres, somos ensinadas a pensar neles. Deem um pulo lá, se puderem, e assistam ao vídeo.

Para quem não foi lá, deixe-me explicar a situação: a marca Dove fez uma campanha para chamar a atenção de como as mulheres enxergam a si mesmas: em portas de lugares públicos, como shoppings, por exemplo, foram instaladas placas com os dizeres “Normal” e “Bonita”.  O número de mulheres que escolheram passar pela porta das “Normais” é impressionante. E aí me surgiu a pergunta: Gente, o que, raios, é ser “‘Normal”? Alguém que não é feio nem bonito? Alguém com a aparência comum? Alguém que não brilharia em papel de revista pegando um bronze na ilha da Caras????

Ai gente, que coisa cansativa. Eu sei que já comentei sobre isso (neste post  e neste, por exemplo) mas acho que a beleza, desse jeito esquisito que separa pessoas em “Bonitas”, “Feias” e “Normais” não passa de um glamour, uma purpurina para lá de vagaba, que faz a gente chamar um bocado de atenção se vista de longe e pareça um vagalume da feirinha da Uruguaiana (lugar de comércio popular aqui no Rio, famoso pelos produtos falsificados) quando se chega perto. Como diz a música:

“Glamour é simples
Glamour é fácil
Basta o peso, a pose,
a roupa, o riso, o rosto,
a festa, o gesto e o jeito exatos.”

Ou seja: é uma receita do “ser” que não tem cabimento, gente. Uma fábrica de costumes estipulados: “como se vestir”, “como se maquiar”, “como falar”, “como sorrir”. E o tanto de gente que quer seguir a receita para virar algo que consegue ver em outras pessoas mas — por estarem na capa de uma revista, em um video do youtube ou em na novela das 21h — pensa ser melhor, mais especial do que ser quem você é… E quando não o conseguem (óbvio. Você não é aquela pessoa que está tentando ser!), acabam por menosprezar o que tem de melhor: serem elas mesmas. Acabam perdendo um tesouro inestimável, que é ver-se como a linda/gostosa/esquisita/única/defeituosa/matavilhosa que é. A prova disso é o número de mulheres que escolheram se taxar de “Normais”.

“Quando você morre pra perder 1 quilo
E entrar naquelas roupas que você nem gosta
Pra seduzir o mundo que te pede a alma
Querida tenha calma e acredite em mim

As perguntas que ficam, rasgadas e finas, são:

Afinal, o que é “ser bonita”?

Afinal, o que te faz “bonita”?

O que te faz “normal”?

Afinal, qual das duas portas você escolheria?

Eu escolho o “Bonita” ❤

hahaha

Se eu fosse você, escolheria também!!!!

Beijo!

Liz.

Ps: a música citada é “Glamour”, de Leoni e Luciana Fregolente <3.

 

Vladimir Safatle, se o governo Alckmin fosse autista, São Paulo seria um paraíso!

Eu tenho tantas coisas a dizer sobre esse texto, que elas se atropelam pela minha garganta; uma sobrepondo-se à outra, todas vítimas da ânsia de saltar, lúcida e imensa, para o mundo.

Leiam, senhores, e aprendam. Pelo amor de Deus, aprendam: Autista não é uma palavra cuja conotação te permite usá-la na forma de um xingamento. ISSO É DESRESPEITOSO, senhores.

O pior é que a conotação está tão entranhada no três vezes maldito “senso comum”, que as pessoas — às vezes — mal percebem o tamanho de seu preconceito. O mesmo acontece com os homossexuais, por exemplo. Quando um colega seu começa a chorar ou cai no campo jogando bola e não levanta, ou faz qualquer coisa que julgam imprópria você não diz: “Para de viadagem e levanta?” ou “Para com isso, virou viado?” ou um milhão de variantes dessas? O que você quer dizer com isso? Já parou para pensar?

Quando você coloca uma conotação negativa à palavra, você a transforma em algo ruim. Parece óbvio, mas prestem atenção: quando você diz para seu amigo “deixar de ser viado” e fazer logo o que tem que ser feito, você obviamente está dizendo: Ser “viado” é ruim. Algo inaceitável. Portanto, a mensagem é clara: “pare de agir como um, porque isso (ser “viado” ou, mais civilizadamente, ser homossexual) é algo inaceitável. Que é algo errado.

O mesmo ocorre com a palavra “Autista”. Quando você zoa o seu coleguinha de classe com a palavra “Autista”, você está claramente dizendo que ser “Autista” é um xingamento que vale o comportamento inaceitável. Que ser “AUTISTA”, é sinônimo der ser algo ruim.

Agora pare para pensar nas 2 milhões de pessoas verdadeiramente autistas do nosso país. Tente entender o quanto elas lutam, para viver em uma sociedade que não as aceita por serem quem são, todos os dias. Me diga, do fundo do seu coração, se você tem algum direito de usar essa palavra com essa conotação, desrespeitando milhões de pessoas e suas famílias que, a cada dia, travam batalhas que te fariam desvanecer em dez anos.

Quer saber? Você NÃO TEM ESSE DIREITO.

Quando for xingar alguém, use xingamentos. E “AUTISTA” NÃO É UM DELES.

Leiam, por favor. Conhecer é o primeiro passo.

Liz

transversos

Autista_ O mesmo vale para o Português… Informe-se e compre um dicionário!

Essa semana, deparei com uma publicação no Facebook com o título “Vladimir Safatle: Governo Alckmin é autista”. Doeu na alma! O título do texto do douto em Filosofia, além de lamentável, é triste e revoltante porque retrata a ignorância e falta de empatia por pessoas que precisam brigar todos os dias por mais respeito, contra o preconceito e a discriminação!

Pra quem não sabe, sou militante da causa autista e tenho um filho autista. O uso da palavra autista no sentido pejorativo ou mesmo com a intenção de ofender vem se espalhando como erva daninha na mídia, na política e entre os ditos intelectuais.

Só para que o leitor tenha alguma noção, elenquei alguns dos tristes episódios e seus autores:

  • Em 2000, sob o título ‘Autismo’, um editorial destaca a fala do então advogado-geral da União, Gilmar…

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Quanto vale o seu dinheiro?

Ok, essa vai para a categoria (abstrata, meu povo… Não tem essa categoria aqui na Oficina!): Posts que a maioria das blogueiras não querem e não gostam de ler. Ok, no bem da verdade, a maioria esmagadora dos posts daqui da Oficina não interessam muito à comunidade da “blogosfera” como um todo — coisa que, desculpem a franqueza, mas não tô nem aí. Mas o conteúdo deste post deveria interessar a todo mundo, principalmente às muitas meninas e meninos que vivem se matando pelas roupinhas/acessórios/perfuminhos/ sabe-se lá mais o que por aí e que fazem suas vidas dedicadas a isso. Inclusive, via blog.  Então, sim, hoje o post é uma crítica. Não uma sátira, não uma indireta, não é uma picuinha. É uma crítica. E críticas servem para você avaliar o que está sendo dito e montar uma opinião analítica em cima disso. 

Quando li um artigo no site do Catraca Livre, tudo que me veio à cabeça, além de uma vergonha — própria e alheia — foi a lembrança de quando fui ao Shopping Village Mall, na Barra da Tijuca (Zona oeste do Rio de Janeiro) para ir à exposição do Game of Thrones e me deparei com uma loja que vendia uma bolsa por um preço… Gente, OBSCENO é a única palavra que eu consigo encontrar. Eu nem lembro direito o valor, mas lembro que eu fiquei chocada demais. Lembro de ficar olhando para a vitrine e me perguntar o que tinha ali que fazia aquele pedaço de couro com alças valer mais do que o salário médio do brasileiro.  Para mim, era só uma bolsa. Mas para mulher que andava na minha frente, acompanhada de sua filha adolescente, era “A bolsa”. Digo “A bolsa” porque elas a acharam linda e que levariam, de todo jeito. Entraram na loja — de fato, muito bonita, arrumada e sofisticada — e não hesitaram em pedir à atendente para ver A bolsa “maravilhosa”. Seus olhares me deram calafrios: olhavam para aquele pedaço caríssimo de couro com uma veneração e contentamento que tive que desviar o olhar. Eu me senti espionando um ato de extrema intimidade, algo quase sexual.  E aí, você pensa: “tá e o que isso tem haver com o post, no final das contas?”

Eu respondo: Se vocês não foram lá no Catraca Livre, deixe-me explicar: o artigo trata de uma campanha, promovida pela ONG Cordaid sobre o consumismo no mundo. Sobre como uma pessoa gasta com uma bolsa OITO VEZES a quantia necessária para uma pessoa conseguir comprar a base de calorias necessárias para comer durante UMA SEMANA. 

Bolsa €32,00/ Comida por uma semana €4,00 – Foto: Gutewerbung

Os números são um soco no estômago de qualquer um… Vocês sabiam que “aquele óculos tendência” que vocês tanto querem equivale a três vezes o valor necessário para que uma pessoa tenha acesso à água em regiões como a Camboja e outras áreas de conflito?!

Óculos de sol €24,00/ Acesso à água €8,00 – Foto: Gutewerbung

É claro que eu sei que vai ter um monte de gente com “argumentos”  contra a ideia de que você deve ter um valor social para aquilo que compra (aquela história de que “se o dinheiro é da pessoa, ela tem direito de comprar o que quiser”).  Vai ter gente que — se chegar a ler isso aqui — vai me chamar de “pseudo comunista” e vai perguntar porque que eu não doo o meu salário para os pobres (salário que nem tenho, ainda…); vai ter gente que vai dizer que isso é “problema do governo” — seja lá de que governo for… Mas, sério mesmo? E eu até concordo que a pessoa tem o direito de comprar  o que quiser com o dinheiro que ganha mas… Na moral, não acham que tem que ter um “limite” de consciência?! Será possível que alguém que vê  o real valor do dinheiro, como ele pode transformar vidas (ainda que não seja “sua obrigação” fazê-lo, ainda que você não queira contribuir para nenhuma transformação…) — como essa campanha está mostrando, por exemplo — não sente NADA ao perceber que gasta em uma coisa absolutamente INÚTIL mais do que uma pessoa miserável ganha para se manter viva?! Gente, eu nem estou falando em comprar “aquele biscoito gostoso” no final do mês, estou falando em ter condições de comprar ÁGUA e FARINHA para fazer mingau sem gosto e ralo para comer! Estou falando de pessoas que morrem, aos milhares, todos os dias porque não ingerem ÁGUA na quantidade mínima necessária à sobrevivência. Estou falando de pessoas que veem seus filhos e filhas definhando lentamente na frente de seus olhos e nada podem fazer. É sério mesmo que você consegue sair se sentindo DIVA nos seus óculos de sol de n! dinheiros depois disso?! 

Deixe-me perguntar: quanto REALMENTE vale aquele vestido lindo-coleção-outono-e-inverno que você comprou pela internet ou da grife-bafo que, reconhecidamente, tem seus produtos de procedência duvidosa? Quanto REALMENTE custou os produtos do seu videozinho super-demais de “Comprinhas do mês” que você tanto se orgulha dos n! likes que conseguiu? Sabe por que vocês conseguiram, na maioria das vezes, comprar aquela saia escândalo baratésima na internet ou aquela base apaixonante? Gente, eu vou escrever diretamente, para ninguém fingir que não sabe mais: TRABALHO ESCRAVO. ES-CRA-VO. Vocês, com suas “comprinhas do mês” e “looks da China” bancam uma indústria que explora a vida de pessoas. O que, foi mal — a verdade dói — mas torna vocês exploradores por extensão. Querem um exemplo? Saiu uma notícia no site administradores.com sobre uma brasiliense que, ao receber sua comprinha básica do famoso site AliExpress acabou por ganhar um “brinde” inesperado: Um pedido de SOCORRO de um dos funcionários chineses, que conseguiu inserir o bilhete na blusa que produziu.

Fonte: Retirada do link http://www.administradores.com.br/noticias/cotidiano/braziliense-recebe-compra-de-site-chines-com-pedido-de-ajuda/94282/. Descrição da figura: Ao lado da etiqueta da blusa recém chegada, está o bilhete escrito “I SLAVE HELP ME” — traduzindo para o português: “EU ESCRAVO ME AJUDE”.

Este caso não é o primeiro a ser noticiado: três consumidoras do Reino Unido e uma outra da Irlanda também se depararam com pedidos de socorro em compras. E sabe o que foi feito a respeito? NADA! Gente, pelo amor de Deus: Uma pessoa — de carne, osso e sangue — tentou escrever um bilhete numa língua que não conhece tentando pedir AJUDA. Porque é ESCRAVO. Porque tem sua vida reduzida à exploração para você comprar uma blusa!

Em cinco meses desde o acontecido, essa foi a única nota do site: “vamos investigar denúncias”.  Sério, Brasil?! Não é necessária muita investigação, eu diria. É só mandar a polícia rastrear os empregados, verificar a fábrica e constatar a mão de obra escrava. Mas por que será que nada acontece? Hummm…. A primeira dica para se chegar à uma resposta está no fato de que a Aliexpress pertence ao grupo Alibaba, que recém entrou na Bolsa de Nova York em setembro e transformou seu fundador, Jack Ma, no homem mais rico da China. Sua fortuna é avaliada em US$ 25 bilhões.  A segunda dica é: Se o cara ganhou tanto dinheiro vendendo roupas e afins produzidos através de mão de obra escrava é PORQUE TEM GENTE QUE COMPRA. Entenderam, queridos, ou preciso desenhar? A Liz desenha, se vocês quiserem…

Outro exemplo ESCRACHADO foi feito em um reality show noruego de 5 episódios, chamado Sweatshop: deadly fashion, que desafiou três blogueiros de moda a morar e trabalhar por um mês em uma destas oficinas têxtil em Phnom Penh, no Camboja (escrachado e revelador, mas real: NADA foi feito pelas pessoas que trabalham na fábrica que é mostrada no reality. Continua funcionando perfeitamente, com a exploração rolando solta…). As cenas são de arrancar o coração fora e é um bom choque de realidade para quem vive no mundo do consumismo e não da moda. Isso porque a moda, em si, é um reflexo da sociedade. É um elemento cultural, não puro consumismo, não pura vaidade. Se eu fosse vocês, dava uma passada no site e assistia. Eu só achei no youtube o trailer em noruego (abaixo), mas no site tem os vídeos com legenda em inglês.

Então, para terminar esse post imenso, façam um favor:  antes de comprar uma coisa, perguntem-se quantas vidas valem o que você quer. Pergunte-se se vale a pena. Pergunte-se quanto vale o seu dinheiro. 

(Ps: Para contribuir com a ONG holandesa, uma das uma das maiores do país a trabalhar com comunidades pobres em áreas de conflito, clique aqui.)

Liz.

De quem é esse rosto?…

Por mais batidos que os temas “beleza” e “aceitação” pareçam ser, a ideia geral é que são clamados às paredes, porque efeito nenhum o discurso da sanidade parece ter no mundo. Sejamos francos:  quando você se olha no espelho, o que você vê?

E, principalmente, você se identifica com o que vê? 

O mais assustador, na minha opinião, é que a resposta da maioria das pessoas é quase sempre “não”. E não interessa o quanto o “movimento aceitação” grite, essa loucura pela “beleza” — entre muuuuuuuitas aspas! — só vem crescendo. A prova disso, é o número exorbitante de cirurgias plásticas realizadas por ano no mundo inteiro, número este que só vem crescendo. Eu li um artigo no blog Dorama Ever que mostra fotos de  mulheres asiáticas antes e depois de sofrerem plásticas e minha cabeça ficou fervendo a respeito… O número de cirurgias cresceu tanto em países como Coréia do Sul e Japão, que é até comum uma menina cujos pais tenham condições para tanto, ganhar como presente de aniversário de 16 anos um novo rosto!

O.O

 

Apenas eu acho que isso é uma loucura imensa? Ou será que estou sendo muito… Hummm… “Antiquada”? A procura pela chamada “beleza” (que nada mais é do que algo que alguém nos disse que era “beleza”e que passamos a aceitar como tal durante nossa vida)  é algo que nos é imposto desde que nascemos, especialmente às mulheres; que — por toda a longa trajetória do sagrado feminino — se mantiveram como detentoras desta característica em especial.  Procurem nas mitologias pelo mundo a fora e me digam que deusa foi amada e admirada por ser feia. Não falo da pobre Afrodite e suas amarras com o que o mundo determinou como ela seria ela mesma, falo de uma deusa que, por ser feia, foi idolatrada. Não, senhores, sempre construíram-se templos à beleza, seja ela de que tipo for, mas nunca à feiura… O que me faz pensar que somos treinados desde sempre a repudiarmos tudo aquilo que os outros não proclamam como belo.

Percebam que não é algo instintivo, como muitos afirmam por aí:  a atração sexual em si, pura e básica como instinto primário, nada tem a ver com a aparência: são nossos feromônios que atraem o parceiro/parceira. E não enxergamos feromônios. Pessoas com deficiência visual, total ou parcial, também sentem tesão, mesmo sem enxergar a aparência da outra pessoa. A atração pelo puramente visual, embora válida, é algo que relacionado com a sociedade. Ditado por ela. A prova disso pode ser vista em um vídeo genial do canal do youtube do Buzzfeed video, mostrando os diferentes padrões de beleza feminino estipulado pela história da humanidade, do Egito Antigo até hoje (apenas algumas “eras” ocidentais e UM oriental, mas já está valendo!).

Sacaram? As mulheres que possuíam esses tipos de corpos eram as “TOP” do seu momento. Mas existiam mulheres com outros tipos de corpos também, assim como hoje em dia. Ou seja: essa coisa de “corpo perfeito” é criação da sociedade como um todo, e nós somos inseridos nisso desde que nascemos, sem nem nos dar conta. Um dia, o “corpo ideal”será outro, e você terá passado boa parte da sua vida tentando alcançar algo que não é e não pode ser real. Então, DESENCANEM!

Sobre as cirurgias: se você realmente não se sente à vontade com você mesma, se a pessoa que te olha no espelho todo dia não é você, você tem todo e qualquer direito de querer mudar isso. Não estou aqui para apontar o dedo e espalhar a discórdia por aí. Não é isso. Apenas lembre-se, se de alguma valia for, que o rosto que te olha é resultado de uma história, que vai além dos seus pais, que vai além de você. Você, com seu nariz, seus olhos, cada linha do rosto, sua boca e queixo, é a prova viva de que o mundo é tudo que passa e deixa rastro pelo caminho, é suor de gente, é retrato escondido da história de outros e suas circunstâncias. Quando me olho no espelho, vejo uma garota com muita bochecha e pouco olho, mas tem algo que, quando olha com atenção, grita por baixo disso tudo.

O rosto que me encara do espelho é o rosto dos adolescentes que se conheceram durante o ensino médio,

E começaram a fazer teatro juntos

E se casaram

E se separaram…

O rosto que me encara do espelho é o rosto dos paraibanos que, sem ter o que comer ou vestir, vieram para o Rio de Janeiro em busca de uma vida que fosse digna de se chamar assim;

E chegaram em uma cidade isolada

E trabalharam até a última nesga de energia

E tiveram 6 filhos.

E a quinta filha se casou com um colega de escola do ensino médio, que fazia peças de teatro com ela…

O rosto que me encara do espelho é o rosto dos tupis, mais ao norte,

do filho do espanhol vindo para as terras além mar,

do português a se instalar nas províncias ribeirinhas

O rosto que me encara do espelho, sem sombra de dúvida,

sou Eu.

Tintas em um vestido branco e um sorriso no rosto.

Li uma reportagem do site buzzfeed sobre uma moça que foi abandonada pelo noivo a poucos dias do casamento. Poucos dias, mesmo: na semana do “Grande Dia”, ele disse que não a amava e que não poderiam se casar. O que ela fez? Cancelou festa, se enroscou no sofá com um edredom e um pote de sorvete? Pegou o recibo das tão sonhadas fotos do casório e o rasgou em mil pedaços? Colocou uma grinalda de flores no manequim do vestido de noiva e chorou o luto do seu casamento perdido?

Não, senhores! Ela pegou o vestido, manteve a seção de fotos e fez um book de Não-casamento. Sujou o vestido todinho de tinta, ao lado das não-madrinhas, dos pais da não-noiva! O pai dela chegou a levar charutos para comemorar! ❤ As fotos, creditadas à Elizabeth Hoard Photography, ficaram muuuuitooooo incríveis e vocês podem conferí-las na reportagem completa do site buzzfeed.

E fiquei meio arrebatada… Que coisa maravilhosa, o que aconteceu! Quero dizer, quem tem força de espírito o suficiente para se encontrar depois de ter perdido algo que lhe era precioso?

Crédito da imagem: Elizabeth Hoard Photography

Confesso que me deu certa satisfação em ver o vestido todo sujo de tinta… Honestamente, ele ficou lindo! hahaaha… O sorriso no rosto dela foi transferido para o meu, antes que eu percebesse. Comecei a pensar, com uma boa dose de admiração, no que eu faria no lugar dela. “Morreria de Vergonha”, foi o primeiro pensamento… Mas, sério, vergonha de quê?! E a resposta veio em seguida, como mais uma linha em um código do fortran (para aquelas que não sabem, é uma linguagem de programação!), a lógica puxando-a rapidamente, como se um comando ordenasse que viesse à tona: Vergonha da rejeição. Vergonha de ter que, a poucos dias de mostrar ao mundo a minha “felicidade”, de provar que eu “venci” um jogo louco que eu nem percebi que estava jogando, mostrar que eu — de forma absolutamente vergonhosa — tinha perdido. Além do coração partido — o que seria natural — eu ficaria envergonhada. Que covardia, a minha…!

Sentimos vergonha da rejeição, mesmo sabendo que a rejeição parte do outro e não de nós. Porque precisamos ser amados, queridos, completos. E caso não sejamos, a vergonha do “Não” nos invade. Acontece comigo, acontece com todo mundo. Aconteceu com ela. A diferença, é que ela pegou esse sentimento e mostrou que ele não é necessário. Que viver com ele é uma perda de tempo. Que ouvir um “Não” redondo na sua cara, que perder a batalha do “para sempre feliz” às vezes é a melhor coisa que pode nos acontecer. Às vezes, precisamos das lágrimas para clarear a nossa visão, não é mesmo?

Vamos tentar uma coisa: Da próxima vez que alguém, um trabalho, uma escolha, uma tentativa, a vida te der um “Não” , vamos olhar nossa cara inchada de chorar no espelho (ou sentí-la, no caso daqueles que não puderem vê-la, no sentido literal da palavra!). Perceba as olheiras, os olhos diminuídos e vermelhos, o nariz igual a de um palhaço resfriado e enxergue a ruga que se formou entre as sobrancelhas de tanto fazer cara de dor.  E tente enxergar o que tem por trás disso. Se enxergue. Pegue o maldito vestido branco da sua vergonha, suje-o de tinta e perceba que ele não passa disso: um vestido branco. Assim como um pé na bunda, uma prova ruim, uma má entrevista de emprego. Eu sei, muito bem, o quanto isso é difícil. Eu mesma fico meio desesperada 80% do meu tempo mas, juro, vou tentar me enxergar.

Encontrar a minha própria força, dignificar minha própria felicidade. Sem prêmios ou vitórias ou troféus. Só eu, do jeito que eu sou… Será que consigo?

Espero que consigam também!

Vamos tentar, meu povo?!

Beijo!

Liz.