Máquina do Tempo Literária #1: A Herança

A Herança

2016-11-10-12-55-52

CAPÍTULO 1:

Fechando a tampa…

          O quarto inteiro cheirava a morte. Morte e silêncio misturados à uma tristeza tão inesperada que poderia beirar a hipocrisia; o que foi de percepção geral sem que ninguém o comentasse. Os familiares do velho Bartolomeu se espalhavam pela casa – cada vez mais lotada com a chegada das pessoas à medida que a notícia do falecimento se alastrava – encomendando discursos pesarosos e lágrimas espalhafatosas de vez em vez. Continuar lendo

Destrancando o baú: máquina do tempo literária

Gente bonita do kokoro!

Deu a louca na Liz e resolvi liberar algumas das histórias que já escrevi. São coisas passadas, algumas beeeeeem distantes. O objetivo nem é “publicar” essas histórias como algo sensacional. Até porque, nem estão “ohmeudeusoquecoisabemescrita” r tal. rs Mas sim que elas possam emocionar alguém aí, quem sabe, do jeito que me emocionaram. E me mostram uma coisa encantadora: o tempo. Como eu mudei, amadureci, me transformei e como a minha escrita — tão minha, gente! Tão espelho meu, as minhas histórias…rs — abraçou o tempo.

Essa experiência, portanto, é a minha “máquina do tempo” literária. Tomara que alguém goste aí!!!! ❤

A primeira história que vou liberar é um amorzinho chamado “A Herança”. Vou tentar criar uma página só pra ela, porque é maior do que moralmente é permitido que um post seja! hahaha

Edit: Deus do céu, como cria uma página para isso aquiiii????? hahahaha Enquanto eu não consigo resolver isso, vou publicando em capítulos, ok? Quem quiser, pode conferir co capítulo 1 aqui

Beijo, gente!!!

 

Projeto miniconto musical #1: Bendita Genir

Oi genteeeeeeeeeeeee!!! Enfim, trago para vocês o primeiro conto do Projeto Conto Musical, inspirado na música “Genir e O Zepelim”. Que responsabilidade, gente!!! hahaha Frio na barriga aqui… Espero que gostem!!!

Ps: Tem passagens que não me parecem apropriadas para menores de 16 anos, ok?

***** Bendita Genir *****

Nem branca nem preta, nem loira nem morena, nem gorda nem magra, nem alta nem baixa. Assim era Genir, que morava no puxadinho da Dona Neuzinha, por 100 contos ao mês. Todos conheciam Genir de longe: Tinha um sorriso doce, um molejo invejável nas saias que, atrevidas e fluidas, esbarravam pelas vielas do morro com a leveza das almas que não devem nada para ninguém. Rescendia a entrega, a aceite, a “sim”. Aliás, essa parecia mesmo a missão de Genir na vida: não  devia nada mesmo, só se dava para quem a quisesse. Amava ser de qualquer um, porque assim ela era só o que ela quisesse ser. E nada mais.

–De tudo que é nego torto, do mangue e do cais do porto, ela já foi namorada! — diziam as cocotas pelos cantos, a título de ofensa. Como se ter muito amor para distribuir fosse coisa ruim de se ter. Genir nem se fazia de rogada, dava-se sempre que queria, sem pudor e com maestria, porque uma boa trepada faz milagres e deixa qualquer um de cara lavada e sorriso aberto. O seu corpo era de quem o quisesse para ser feliz. Dos meninos do CIEP aos velhinhos do cortiço do fundo, lá na Travessa, até da viúva do Seu Joca. Ela amava todos eles e quem mais ela quisesse amar.   Doce, doce. Genir era um poço de bondade.

Era boa assim desde menina. Nascera com esse talento, por assim dizer. Só não tratava com bandido porque bandido era gente ruim. Para quê se balançar com gente assim? Dava até arrepio, se envolver com coisa ruim, gente que vivia de madade. Nem com homem casado, para não fazer desgosto à chifruda nenhuma. Não, Genir era boa. Deixava a fartura do seu dom para quem precisasse dele. Mas de tanto espalhar sua arte, singela e devastadora, seus encantos ganharam fama. E era só calçar o tamanco e sair para bater uma roupa no tanque que já começavam a repetir:

— Olha lá, a piranha da Genir!!!

— Olha lá, a puta da Genir!!!

E lá iam as mães taparem as vistas dos filhos, apontavam às filhas o mau exemplo. Como se a simples existência de Genir, esfregando a roupa contra o tanque, pudesse converter suas crias na própria Genir.  “Esse tipo de mulher aí só serve para apanhar”, diziam. “Não vale nada, nem para cuspir!”, exaltavam. Genir nem se encolhia, sabia que só faziam por deboche, tinham medo do sexo, uma pena só. Não deixava de dar o seu “Bom Dia” carinhoso à toda essa gente, pobre de espírito e seca por dentro, aos pobres meninos e meninas ensinados a serem o que os outros queriam que fosse.  Muitos daqueles meninos vinham a ela, tentando se encontrar na sua soltura, pedindo para ela os fazer homem e ela acatava, dengosa e sábia, revelando-lhes a verdade universal: Ninguém te fazia homem além de você mesmo. Assim como ninguém a fazia ser mulher além dela mesma. Mas os crentes da igrejinha vinha e mexe a açoitavam a abandonar o ofício que tão bem lhe fazia, a modo de tirar “o demônio”que habitava o corpo dela.  “Maldita, Genir! Maldita Genir!”, exclamavam sempre que pegavam um menino vidrado em suas saias leves.  E o Pastor Inácio vinha dia sim, dia não, para repreendê-la, sem saber que seu filho vinha noite sim, noite não para benzê-la de gozo. A vida era assim mesmo: o que um renega, outro pega o gosto. E Genir vivia muito bem assim, obrigada.

Um dia, o Boca entrou no morro com uma dúzia de cabeças platinadas e fuzil a tira-colo, ostentando uma moral danada de madachuva como mais um elo das muitas correntes de ouro que carregava no pescoço. Veio fugido do Coringa que ocupou o seu lugar lá no Buraco Quente. Matou uns vinte que se avizinhavam ao seu caminho na subida e montou residência bem perto da lojinha do Bentinho, pertinho do barraco da Dona Neuzinha e das saias no varal da Genir. O morro tremeu todo, ninguém punha um pé para fora da porta de casa, com medo de cruzar com o Boca e seus comparsas, que atiravam em todo mundo que se encorajasse perto demais de seu novo posto. Ficou o morro todo encolhido, esperando a guerra que estava por vir quando o DC voltasse.

Dc era o dono do morro. Na ocasião da invasão do Boca, ele estava em campanha, tentando conquistar o posto da droga lá no Azul. Quando DC descobriu que o Boca foi se entocar logo no seu território, bateu em retirada, armado até o cangote, para acabar com aquela marmota. E aí o Boca fechou parte do morro, com todo mundo dentro, botando os moradores de reféns. Queria passagem segura para fora do morro ou todo mundo ali morreria. Podia até morrer mas levava metade do morro com ele e queimava tudinho, só para o fogo se espalhar em cada barraco e não deixar nada para o DC comandar. Mas DC se esticou todo e mandou dizer “Que quem mandava no morro era ele” e que o defunto — no caso, o defunto era o Boca mesmo… Ou anunciação do que viria a se tornar —  não tinha nada que botar condição. 

Os moradores começaram a se desapegar do medo do Boca, certos de que DC logo viria acabar com a fanfarra do forasteiro. Mas isso só piorou tudo. Ao ver que sua exigência não seria atendida, o Boca começou a matar gente dentro da sua metade. Tudo para fazer pressão, para que os próprios moradores da metade do DC pedissem que ele atendesse aos pedidos dele. Logo na primeira leva, foram Bentinho e a esposa, só ficou a menina de cinco anos e alguns sacos de feijão com ela. Ficou todo mundo com medo de acolher a menina, que ficou largada, na esquina, sem saber direito o que fazer além de chorar. E a vizinhança inteira começou a falar que a menina estava perdida, que ia acabar virando puta que nem Genir, pois não tinha mais rumo na vida e estava marcada pelo Boca. E Genir — que nem puta era! Era mesmo lavadeira de profissão —  saiu do seu barraco, queixo baixo e olhar perdido, e catou a pobre coitada. Podia até virar Puta, se quisesse, mas não ia ser uma Puta sem casa. E a Dona Neuzinha  ficou horrorizada, achando que o Boca ia se afrontar de Genir ter pego a menina para criar no seu puxadinho. “Maldita Genir! Maldita Genir!” ela maldizia, enquanto Genir subia as escadas apertadinhas com a garota esfarrapada equilibrada nos braços.

E o Boca ficou só olhando, da esquina, enquanto Genir carregava a menina no colo e amparava os sacos de feijão com a outra mão. Achou Genir mulher de carne mas — ainda mais — mulher de sangue e a quis para ele. Ficou sentido, também, com o caso da menina. Podia ter escolhido outra família para rodar, não precisava ser justo com uma criança assim… Mas não podia mostrar arrependimento assim, na lata. Tinha que parecer que estava no comando. Reuniu toda a comunidade no campinho e disse: 

— Ia estourar a cabeça de todo mundo aqui. Mas mudei de ideia. Eu vou evitar o drama e parar de matar vocês, se aquela mulher ali vier para mim essa noite. Se ela me servir bem, amanhã tá todo mundo salvo.

E todo mundo se virou para ver quem era a escolhida do Boca e, paralisada como gesso, bem na reta do dedo em riste, estava Genir. Logo Genir!!!! “Mas não pode ser Genir…!”, exclamavam  os moradores, surpresos com a escolha do Boca. “Ela é mulher à toa!”, “Ela é feita para cuspir!”. Ao perceber todos os olhares voltados para ela, correu para dentro do puxadinho, fechou a porta com força e se encolheu no sofá. Agarrou a menina e a apertou firme, para ver se a tremedeira passava. Não deu nem um minuto e Dona Neuzinha já entrava no barraco com a autoridade de proprietária.

— Vai lá, Genir!!! — ordenou, como uma mãe ordena à uma filha rebelde.

— Eu não vou!!! — respondeu Genir, atordoada e enojada.

— Mas ele quer você!!! Ah, pelo amor de Deus, você vai com qualquer um!!! — explodiu Dona Neuzinha com repulsa aparente pela inquilina —  Por que não ir com ele? Ele vai te dar ouro, sua idiota! Vai te dar condição!!!

— Pois eu prefiro me deitar com bicho!!! — foi o grito de resposta de Genir. 

Diante de tal heresia, Dona Neuzinha bateu os calcanhares e voltou acompanhada de uma verdadeira multidão. Foram entrando, ocupando cada centímetro do puxadinho, até que Genir parecia estar no centro do mundo inteiro. O Pastor Inácio foi o primeiro a falar, os olhos vermelhos de lágrimas. Deu um jeito de se ajoelhar em frente a Genir, o tom de súplica ganhando forma em cada ruga do rosto:

— Irmã, você pode nos Salvar! Será um sacrifício em nome da vida de todos!!! Por favor, vá com ele!!!!!!! O Altíssimo irá recompensá-la, Irmã!!! O Reino dos Céus estará à sua espera!

E Genir se viu comovida pela oração que, pela primeira vez,  proclamava a sua salvação eterna. Mas mesmo assim, o pensamento de se abrir para um monstro capaz de deixar uma menininha vagar catarrenta e órfã pelo morro a fez enrijecer! Seu estômago se retraiu numa nova ânsia e ela desviou o olhar do Pastor.

— Vai com ele, Genir!!! — Vadir, o filho do Pastor, implorava à amante, mãos no peito como um mendigo que pede comida. — Você vai nos redimir!!!

E por todos os lados, ouvia-se um único hino: “Vai com ele, vai, Genir!!!”. Eram um mar de lágrimas e súplicas e Genir, por fim, cedeu. Saiu de banho tomado, aos murmúrios cálidos de “Bendita Genir!!! Bendita Genir!!!” por todos os lados. Ela os guardou bem na memória, para na hora em que o nojo vier, ela pudesse se agarrar a eles e continuar ali. Os capangas do Boca a pegaram no meio do caminho, escoltando Genir que tremia, com ânsia de fugir. Mas continuou em frente, entrou na casinha que Boca usava de posto, tirou a roupa toda assim que ele pediu. Não fez nenhum pio, as lágrimas caíram tímidas e silenciosas, enquanto ela se abria para ele.

Aquilo foi muito diferente de todas as outras vezes que Genir partilhou o corpo com quem quis. Ela gostava dos sorrisos abusados, de mãos desavergonhadas e gemidos suaves. Ela gostava de bocas indiscretas, mordidas modestas e línguas tentadas a borbulhar em seus ouvidos enquanto o universo a preenchia embaixo. Ela gostava de ritmo incerto e algum traquejo de quadris, que temperavam o ato com audácia e graça. Mas o Boca só entrava e saía, entrava e saía, como se marcado pelos ponteiros de um relógio, ritmado e constante. E ela se pegou rezando, pobre Genir, para ver se o Altíssimo pelo qual o Pastor Inácio pregava não o apressava logo. Porque a cada entrada ardia mais e a cada saída ela pedia por menos.

Achou que ia ficar cheia de bolhas e que nunca acabaria. Que ele ficaria ali, eternamente, entrando e saindo, enquanto as lágrimas de repulsa e dor se formavam no canto dos olhos de Genir; que nem fingir mais conseguia. Por fim, num empurrão fundo e dolorido, ele explodiu. Não dentro dela, graças a Deus! Lambuzou-a toda, molhando o ventre e os peitos, melecando-a até ela sentir o gosto do esperma no ar. E, depois de um curto descanso, lá foi o Boca de novo, servindo-se da pobre Genir, que parara até de lutar em pensamento, se fiando aos murmúrios aliviados de “Bendita Genir!!!”, tão raros, tão sentidos!!! Salvaria o morro. Sim, sim. E a menininha? Talvez pudesse ter amiguinhos na igreja, quem sabe?  O Pastor cuidaria dela melhor, teria uma cama para a pobre, algumas roupas para lhe cobrir. Se aguentasse, tudo ficaria bem.

Era um pouco antes do amanhecer quando ouviram os tiros. E Genir sabia que DC tinha conseguido furar a barreira e estava entrando de novo na metade roubada do morro. Um dos capangas entrou corrido no quarto, apressando o chefe e ambos saíram, sem nem olhar para Genir, prostrada com as pernas arqueadas na cama, sem forças para levantar. 

Deu um suspiro aliviado, virando-se de lado no colchão mole. Estava terminado, afinal. Precisava dormir. Mas não ali. Genir queria ir para casa, deitar na sua cama e fingir que tudo não passara de um pesadelo encarnado. Amarrou o vestido no corpo dolorido e saiu para luz fina do dia que chegava. Notou os vultos amontoados perto da casa e tentou sorrir. Mas o sorriso parou no meio quando algo a acertou bem em cima das têmporas e ela sentiu o sangue começar a escorrer, devagar.

— Ali, oh!!! Ali está a Genir!!! — ganiam de algum lugar

Mais uma pedra veio do além, enquanto ela tentava se recuperar do choque.

— Piranha!!! Mulher de Bandido!!! — alguém gritava mais acima.

Mais uma pedra, enquanto ela vislumbrava uma multidão apontando-lhe o dedo. O eco dos gritos tomando conta de seus sentidos. 

— Mulher à toa!!! Joga pedra!!!

E enquanto ela tentava se defender do ataque inesperado, a multidão dava passagem para DC e alguns de seus funcionários. Ela tentou falar com ele, explicar que não queria que aquilo tivesse acontecido mas a voz saiu enrolada pelas lágrimas. DC apontou a arma para Genir:

— Tu vai com qualquer um, né, sua Puta! Maldita, Genir!

E atirou bem na sua barriga, como se soubesse exatamente o lugar em que o Boca a molhou.

E Enquanto o sangue escorria na ferocidade e esgar de seus algozes,

Enquanto a dormência e o frio começavam a aninhar suas dores,

Ela tentava transpor os uivos ferozes, alçando-lhes um fiapo inaudível de voz.

Olhou ao redor e viu o Pastor e lembrou-se de sua cara lavada de lágrimas… E do Valdir, de mãos faceiras e rápidas, implorando baixinho… E da Dona Neuzinha, mãos no peito em súplica…

E quis dizer com a voz deles o que estava ecoando na sua mente:

“Não joguem pedra na Genir…!”

“Bendita Genir!”.

 

***** Fim *****

Ps: Wow!!! Minha primeira tragédia… haha Ficou bastante desajeitada, não? Mas acredito que isso se deva à minha ousadia em escolher uma música, logo de cara, que por si só já era uma narrativa. E atemporal… Mas gostei bastante do exercício de transpor essa história para uma outra realidade, mantendo o intuito de mostrar a ingratidão e a hipocrisia da sociedade. Pobre Genir… Não consigo entender a razão em se demonizar tanto a sexualidade feminina assim… Quero dizer, não nascemos todos da sexualidade feminina?

O chocante é que ainda percebo essa canção com uma interpretação atual… Tão aterrorizante pensar que existe “gente”que acredita que existem mulheres “feitas para apanhar” e “boas para cuspir”. Apenas cuspir. Mascar e cuspir, apenas… Assustador, assustador…

Beijo, gente!!!

Liz.

Conto#3: O Invisível – Parte [Final]

Finalmente! Parte final, meu povo! É hora de nos despedirmos de Hugo e seus conflitos. Obrigada aos guerreiros que chegaram até aqui! hahaha

Quem quiser ler da primeira parte, é só entrar neste link.

Beijo!

*** 11 ***

Engasgou, tossindo violentamente, a fumaça dentro dele asfixiando seu corpo e sua mente. Colocou-a toda para fora, quase vomitando-a em meio à corrente de frustração e desespero.  O alívio não veio, o conforto não veio, o mundo continuava igual. Jogou rispidamente o cigarro aceso no chão, esmagando-o com vontade homicida enquanto as lágrimas caíam, finalmente, rosto abaixo. Os soluços agravaram a tosse e ele não percebeu os olhares alarmados das pessoas ao redor, que assistiam sua síncope sem nada saberem da batalha que corria na sua mente.

Quis desesperadamente gritar. Jogou a garganta para o alto, arreganhou a boca com força, deu tudo de si para jogar tudo para fora. A voz, no entanto, não saiu. E ele percebeu, com toda certeza do mundo, que o mundo inteiro estava ali, ao redor dele, como que a testar seu próximo movimento.Decidiu sair do centro do palco, voltando-se em direção à parede.

Encostou-se ali por fim, escorregando até o chão enquanto a tristeza e a raiva o tomavam em lágrimas e angústia. Encolheu-se, os braços em volta dos joelhos como uma criança, abaixou a cabeça e chorou.

Levou cerca de dez minutos para voltar a se controlar. A respiração estava pesada e o nariz era um entidade pesada e inútil diante do catarro que se acumulara ali. Levantou-se num ímpeto e invadiu a recepção. Procurava a figura quebradiça do menino. Estava tudo estéril, só o branco dos brancos e paredes e nada da existência pequena de Lucas. Voltou-se para frente da recepção.

— O menino! Para onde foi o menino? — perguntou com mais gana do que seria socialmente bem admitido.

— Senhor? Poderia se acalmar? — vendo que Hugo se controlava, sorriu com expressão profissional: — O que o senhor deseja?

— Vim visitar o Lucas. O menino que estava agora mesmo, do outro lado, conversando comigo. — apontou para o corredor de trás. — Sou o marido da antiga médica dele, um amigo da família.

— Ah, o senhor o estava acompanhando? Uma enfermeira veio atrás dele, encaminhá-lo de volta ao quarto. — informou — O senhor não pode retirar o menino, assim, dos seus aposentos, senhor! — repreendeu — Ele tem a saúde frágil, deve ser acompanhado por um enfermeiro.

— Ah, sim, claro. Com licença. — e saiu em direção aos elevadores. Apertou o botão do quinto andar com uma certeza férrea de que estava no caminho certo. Saiu em um corredor largo e limpo, com o cheiro característico de hospital mais pronunciado do que na recepção, vasculhando o nome alocado no quadrinho ao lado de cada uma das portas. Encontrou facilmente a porta certa, entrou sem esperar resposta às batidas e encontrou Lucas deitado em uma cama alta, folheando a revista apoiada na bancada reservada à bandeja de comida. 

O menino levantou os olhos, o sorriso fácil ganhando seu lugar habitual ao reconhecer seu visitante:

— Você voltou! — os lábios se fecharam um pouco, quando a linha de preocupação apareceu entre os olhos.– Estava chorando…?

O quarto inteiro tinha sinais de habitações permanecente. Figurinhas e desenhos pendurados tomavam as paredes e uma enorme carta celeste, linhas ligando pontos em um planisfério imenso, fora colada bem atrás da cama de hospital. Hugo teve certeza imensa do que precisava ser feito. 

— Vamos, guri. Vambora ver as estrelas!

Pegou o suporte de soro do menino com a mão, enquanto suportava seu peso tenro nas costas. Lucas não perguntou o que o fizera mudar de ideia. Aceitava — como se o mundo se espelhasse nele mesmo — com naturalidade e confiança, a coragem alheia; como se ela viesse naturalmente. Hugo desviou-se do corredor do hospital, onde estariam expostos, e carregou-o em direção à escada de incêndio. Sabia que seriam impedidos caso encontrassem algum funcionário.  

Os degraus se mostraram imponentes e invencíveis depois de alguns lances terem sido duramente vencidos. As costas de Hugo já começavam a pedir clemência, e ele resolveu puxar conversa, para afastar a dor dos pensamentos:

— Por que você quer tanto ver as estrelas hoje, guri? — perguntou Hugo, o esforço de subir os degraus começando a agir no seu corpo ocioso. 

— É a minha aventura! — respondeu. — Eu sou pequeno e não tenho muito tempo, então precisei pensar numa aventura pequena. Ah, mas vai ser tão legal! Eu vou ver as estrelas!!! Será que elas brilham mesmo?!

Hugo parou, mais pelo choque da realidade do que pela respiração doendo do lado do corpo. O menino nunca tinha visto as estrelas, “Meu Deus…!”, pensou Hugo. Só as linhas coloridas em seu planisfério, todos os dias, pensando em como elas seriam lá fora. Ajeitou o peso leve nas costas:

— Segura aí, guri! Daqui a pouco a  gente chega!

E voltou a subir, degrau por degrau, os dez andares necessários para chegar à varanda aberta na cobertura do hospital.

*** 12 ***

A porta do último andar abriu-se para um hall amplo de área comum, absolutamente vazio de pessoas e mobiliado com estilo e sofisticação. Ao final, uma longilínea varanda circundava todo o lado leste do prédio. O céu estava coberto de nuvens roxas e densas, tantas que nem se conseguia distinguir que se moviam. 

Desceu o menino das costas e carregou um dos bancos para a varanda. Lucas se sentou no banco recém acomodado como se a excursão fosse feita todos os dias.  Apoiando a revista no colo, voltava o rosto para o céu repleto em nuvens com os olhos arregalados e curiosos, como se visse a manifestação da verdade maior ali, bem na sua frente:

— Oh!!! Devem ter tantas!!!!!!! — ele olhava, admirado, para o céu tomado de nuvens roxas. — Deve ter uma grande ali, né?! — perguntava para Hugo, apontando um ponto aparentemente aleatório do céu. — E outras juntinhas ali.

Pegava a revista, folheando os desenhos das constelações, uma a uma, comparando o desenho em papel brilhante com o céu escuro como se mostrassem a mesma coisa.

— Oh, essa é “O escorpião”! Eu conheço essa, sei achar em qualquer lugar! — Lucas se gabou.

— E onde “O escorpião” está hoje? — perguntou, reprimindo um risinho pelo tom convencido do menino.

Lucas vasculhou o céu, avaliando seriamente a pergunta.

— Deve estar nascendo agora!!! Bem ali, oh!! — apontou para uma região um pouco acima do horizonte, com tal propriedade que Hugo esperava que surgisse o desenho do escorpião, com suas garras estendidas e ameaçadoras, exatamente como a figura que brilhava na página no colo do menino.

E nesse momento, o vento soprou e um bocado de nuvem se moveu, livre, de encontro ao infinito e além; revelando uma estrelinha de cor avermelhada e sutil, bem na região em que Lucas apontava, o dedo firme e em riste. 

— Olha!!!! — o menino gritou, levantando exasperado, deixando a revista cair no chão devido ao movimento brusco.  Tremia da cabeça aos pés — mas não do frio da brisa, Hugo sabia. — Oh, meu Deus!!! Você consegue ver, Hugo?! Ali, oh!!!!! É tão linda, está vendo?! Tão pequena!!!!! 

O menino tapava a boca com as mãos enquanto o rosto magro era tomado pelos olhos, que cresciam eternamente, extasiados diante do seu pequeno e imenso milagre particular. E os olhos de Hugo foram se apertando, devagar, enquanto eram tomados pelas lágrimas ardidas. Achou que era de felicidade: dera seu presente ao pequeno guri. Mas à medida que caiam, foram tomando corpo de dor, depois agonia e, por fim, chegou o amor. Derrubaram-no  chão: lágrimas de amor são pesadas demais.

— É tão …! Injus…to! — ele chorava como um bebê, as mãos amparando o rosto e as lágrimas que caiam sem freio, nunca mais reprimidas ou silenciadas. “Pobre guri, pobre guri, pobre guri!”, soluçava, enquanto sentia a mão do menino correndo o seus cabelos, confortando-o num gesto de carinho e piedade. “Pobre Ágatha”, que não sabia que seu pequeno paciente estava ali, junto com ele, olhando para uma estrela pela primeira vez. “Pobre menino” , seu coração doeu ainda mais ao pensar no filho, lutando na UTI, enquanto o pai fraco caia em uma espiral de autocomiseração, dia após dia, sem ter coragem nem de lhe ungir um nome, quanto mais de pegá-lo nos braços.

E enquanto o corpo tremia, os soluços vindo em ondas e as lágrimas em chuva, o peso da covardia finalmente transparecendo nos ombros de Hugo, lá estava Lucas: um ponto mínimo diante da dor e imenso diante do mundo. “É só um menino”, pensou Hugo, “E é muito mais alto que eu…”.

— Xiiii — Sussurrou, brandamente, o pequeno Lucas, enquanto a mão fina ia e vinha pela cabeça de Hugo, um carinho desastrado e natural. — Está tudo bem. Vai ficar tudo bem… Não se preocupe, tudo vai dar certo. 

Queria ver Ágatha. Fazia meses que não a via, não lhe falava, não lhe fazia rir. Queria contar a ela que o seu pequeno Lucas viu uma estrela de verdade, que seu filho estava vencendo a batalha contra a morte, que ele tomaria conta do menino, seu pequeno menino. Seu pequeno “Al”. Mas Ágatha estava longe, agora. Talvez… Talvez Hugo nunca mais pudesse lhe dizer que sentia muito por tudo.

— E se eu nunca mais vê-la…? — Hugo, enfim, colocou para fora a pergunta que cortava sua mente desde o dia em que Ágatha o deixou.  

Lucas olhou para ele um pouco surpreso; e o alívio foi tomando conta de suas feições magras. A questão parecia ser bem mais fácil do que ele inicialmente supunha.

— Só porque é invisível, não significa que não existe, não é? — apontou para a estrelinha que brilhava, pouco a pouco voltando a ser consumida pelas nuvens ao redor. — Para a gente conhecer, a gente só precisa imaginar. É só você não esquecer dela e ela sempre vai existir para você. Mesmo quando você não puder ‘ver ela’.

*** 13 ***

Poderiam ter passado horas. Ou poderiam ter sido apenas mais alguns minutos. Não importa o tempo em que Hugo ficou ali, na varanda escura, sendo confortado pelo menino magro e vivo ao seu lado. Quando levantou os olhos, o soro no suporte metálico estava quase acabando e Hugo pôs Lucas nas costas, como se o fizesse todos os dias, trazendo-o de volta ao quinto andar. A mãe do menino e mais três enfermeiros os encontraram ainda no corredor; e houve comoção e choradeira quando o acontecido era explicado, sem qualquer pedido de desculpa ou negligência. 

A mãe do menino o agradeceu. E Hugo foi direto ao sexto andar, onde Ágatha estava internada.

Para sua surpresa, a figura deitada na cama ainda era Ágatha. Sim, haviam tubos entrando e saindo do seu nariz e quadril, e aparelhos circundando a cama como um esquadrão de soldados. Mas ainda era ela: um pouco pálida, sim, um pouco livre demais. Mas era ela. Tomou sua mão, pedindo o perdão atravessado na garganta. E pouco depois despediu-se, beijando-lhe a testa. Se retirou rapidamente, com a promessa de voltar depois.

Havia mais uma pessoa importante, a quem deveria se desculpar.

Fê estava se preparando para ir embora, a preocupação mesclada com a raiva inundando o olhar assim que o viu.

— Olha quem resolveu aparecer! — começou, antes mesmo dele chegar perto. — Eu não estou pedindo que fique com ele, Hugo! Só para conhecer o menino! É pedir demais?!

Hugo veio semi-correndo em sua direção, calando-a com um abraço que ela, felizmente, não rejeitou. 

— Vou cuidar dele, Fê. — Fernando fez menção de começar a falar, aturdida, mas ele a cortou: —  É meu filho, Fê, quero cuidar dele. —  Beijou-lhe a bochecha e deixou-a ali, sem ação, enquanto entrava pelas portas de vidro e pedia à enfermeira chefe para ver o bebê. Seu pequeno Al tinha a pele escura como a sua, as orelhas pequeninas e baixas, e o menor corpinho que ele já vira na vida. Mas estava mais forte do que pensava, agitava os bracinhos e pernas ao menor som, os olhinhos miúdos ainda muito bem fechados.

“Posso segurá-lo?”, perguntou. E momentos depois do banho de álcool, o pequeno embrulho estava em seus braços, chorando alto ante o colo desconhecido de um pai desconhecido. Hugo sacudia o pacotinho levemente, numa tentativa sem jeito de ninar.

— Xiii…! Pronto, Al. — os olhos se encheram d’água, mas ele prometeu não chorar. — Vai ficar tudo bem. Olhe! — Virou o menino em direção à janela fechada. — Veja as estrelas, Al. Elas estão invisíveis, mas é só você imaginar…

*** 14 *** 

O pequeno Lucas deixou o mundo vidente quase um ano depois do dia em que Hugo pode, finalmente, levar seu menino para casa. Levou Alan ao enterro, sentindo que seu filho deveria conhecer o mestre que tinha o tinha guiado de encontro à sabedoria do amor. Era uma atitude medíocre em honra do conhecimento que ele lhe passou, mas era tudo que eu podia fazer. E, de todo modo, tinha certeza de que Lucas estava louco para conhecer Al.

A mãe do menino o entregara a revista com as constelações. Lucas, visionário como era, havia feito questão de escrever um testamento em giz de cera e lápis aquarela; para delegar seus parcos pertences às pessoas queridas. Disse à mãe que era muito importante que ela chamasse Hugo para a “Leitura do testamento”, fazendo-a prometer que lhe deixaria a revista de herança. A mãe cumpriu a promessa, convidando Hugo para a “cerimônia”, onde Lucas requisitara previamente que seu pai tinha que ler o documento em um quarto fechado — do jeito que vira, uma vez, em um filme –; com direito a suco e salgadinho e, principalmente, vestindo terno. Era uma ocasião importante e “todo mundo veste terno em ocasiões importantes”. Hugo não decepcionou: colocou seu melhor e único terno — o que usou em seu casamento com Ágatha  — comparecendo à cerimônia com Alan.

 Às vezes, nas longas madrugadas e dias em que tudo parecia o caos e que ele ainda engatinhava no ofício de ser pai e mãe e tudo o mais que seu menino necessitasse; Hugo se pegava conversando com Lucas. Às vezes, pedia seus generosos conselhos; às vezes, pedia somente seu generoso carinho. Ele permaneceu ao seu lado, discretamente, durante toda a laboriosa jornada; silenciosamente respondendo aos chamados — ora de desespero, ora de alegria, ora só de graça mesmo. Hugo sabia que, de alguma maneira, invisível aos seus olhos lentos, Lucas estava por ali ouvindo. 

Ágatha permaneceu e coma, não mais induzido. Seu corpo simplesmente dormiu, mas Hugo sempre levava Al para visitá-la. Ele sabia que ela estava ali, de alguma maneira. Lucas o havia ensinado, não é? Existe uma forma única e poderosa de enxergar a verdade do mundo. Já dizia Antoine de Saint-Exupéry…

(“Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos”).

*** Fim ***

[Epílogo]

— Olhe, paizão! Uma estrela!!! — o menino vira, encantado, a admiração pulsando em inúmeros tons em seu rosto — É a estrela que você disse que estava lá!!!!

Hugo sorriu, concordando com o seu menino que, já disperso, foi se ocupar de desenhar todas as outras estrelas que não eram visíveis aos seus olhos. Existiam estrelas atrás das nuvens, o menino agora entendia.  Existiam muitas e muitas coisas — em cada pequeno pedaço do espaço e do tempo — que estavam ali, bem diante deles, invisíveis e sólidas. O menino volta correndo, um céu permeado de estrelas disformes no papel e uma ânsia de senti-las na realidade.

Olhando para seu menino encantado, Hugo pensou em Lucas e sua sabedoria. Sorriu enquanto seu menino arregalava os olhos e apontava para as estrelas que, uma a uma, se revelavam ao transpassar as nuvens correntes. A cena toda era um deja vú doído pela saudade e vivo pela lembrança. Já faziam cinco anos e ele ainda lembrava daquele início de noite na varanda do hospital. Suspeitou que se lembraria para o resto da vida.

Quando as estrelas sumiram outra vez da vista do menino, no entanto, o deslumbramento não cedeu. O sorriso no rosto do pequeno Alan permaneceu, como se os pontinhos brilhantes jamais deixassem os seus olhos de novo.

E Hugo percebeu que ali estava, uma coisa pela qual ele lutaria. Que a vontade e o amor e a força pela crença de que aquele pequeno ser na sua frente merecia o melhor que ele poderia dar, essa sim, seria uma batalha que valia a pena lutar. Algo grande, que tomaria sua vida inteira.

Que essa seria sua grande aventura.

Precisava contar a Lucas, que vivera a aventura que ele tanto queria. Se voltassem a se encontrar, contaria sua história em detalhes, criaria suspense, lhe daria todo o seu coração. Sorriu com o pensamento, imaginando como contaria para ele a sua grande aventura na Terra. O sorriso se alargou enquanto fechava os olhos, pensando na expressão de expectativa que o rosto pequeno e frágil do amigo faria ao começar a contar:

— Então guri… E se eu te dissesse que descobri O Invisível?…

O devaneio foi interrompido pelo estridente chamado do telefone. Hugo pegou o aparelho preto com um leve tremor no coração, mesmo sem entender o porque. A voz de Fê estava enrolada de tal forma que somente os muitos anos de amizade a tornaram reconhecível.

— Hugo?!… É a minha mãe! Ela acordou!

[Fim]

 Inspiração: Esse conto, apesar da história ser de uma linha simples, não tem uma inspiração una. Aconteceu devido a uma sequência de acontecimentos: eu fui ao médico, tratar de uma infecção urinária, e em meio às muitas pessoas que esperavam por uma consulta, havia um par meio alheio à cacofonia ao redor: um menino Down e seu pai. Desenhavam juntos em um caderno para distrair a monotonia da espera. O pai tinha que adivinhar qual o desenho, invisível, que o menino havia traçado com os dedos devido a falta de uma caneta. A imagem do pai completamente entregue aos invisíveis rabiscos do filho me ficou impressa na mente. No dia seguinte, eu fui ao CCBB aqui no Rio, para ver uma exposição que tinha como tema e fio condutor a imaginação humana como fonte de conhecimento. Logo no primeiro pavilhão, a receber os visitantes, havia a frase “Para conhecer é preciso imaginar“. E imediatamente me voltou à memória a imagem de pai e filho, decifrando desenhos invisíveis no papel. Dentro da exposição havia  um retroprojetor antigo e um monte de palavras avulsas, que poderiam ser combinadas e projetadas na parede. E a frase que escapou dos meus dedos, como se soprada pela emoção, foi:

“E se eu descobrisse o invisível?”

Daí, a história veio à minha mente, sozinha e natural, como deve ser. =D

Talvez seja uma pequena história grande demais para meus humildes dedos. E por causa disso tenha ficado tão grande. Mas fora feita com carinho, porque abriu-me o coração.Eu descobri O Invisível. Ele é meu.

E, agora, seu também.

Beijo.

Conto #3: O invisível – Part [3]

Ok, demorou mas aqui está: enorme e desajeitado, o final do Conto #3: O invisível. Será dividido em dois posts pelo simples pudor: afinal, eu já fiz vocês esperarem bastante e não quero assustá-los ainda mais com o tamanho desse desenrolar. Vocês podem ler desde a primeira parte neste link.

Beijo, gente!

*** 7 ***

Um mês depois de se separarem, Ágatha sofreu uma crise de pressão grave e foi internada. Teria de ficar de repouso absoluto até o final da gravidez ou — melhor dizendo — pelo máximo de tempo que pudessem esperar para tirarem o bebê de forma a dar a ele — e a ela — uma chance mínima de sobrevivência.

Dia após dia, ela se recusou a receber Hugo que ficou, sempre do hall de entrada do hospital, esperando pelo parto e pela notícia de que Ágatha conseguiria passar incólume pelo processo. A rotina do mês final do martírio de Ágatha se resumiu, para Hugo, em acordar e dar aulas, correr das escolas para o hospital e esperar, sempre esperar, sentado nos bancos em frente a recepção do hospital. Esperar pelo momento em que Ágatha o perdoaria e o chamaria de volta. A cada dia que passava, no entanto, ele sentia como se a espera fosse levar uma eternidade.

Mas durou apenas um mês. Não porque Ágatha finalmente permitiu que ele ficasse ao seu lado, mas porque uma nova crise de hipertensão fez com que os médicos decidissem por tirarem o bebê. A criança tinha pouco mais de cinco meses, apenas. “Será quase um milagre, se sobreviver”, os médicos disseram.

Ele só não sabia se estavam falando da criança ou de Ágatha. Suspeitou que eram dos dois…

O menino, segundo Fê, nasceu uma coisinha de nada de nem 20 centímetros. Menor do que um palmo da mão de Hugo… Estava numa incubadora, tomando corpo e lutando pela manutenção de sua vida minúscula, dia após dia. Aquela coisinha pequena, tão diminuta que conseguiria segurar com apenas uma mão, já lutava pela própria vida. Hugo se pegou esticando a mão, como a imaginar um ser humano tão quebradiço que pudesse ser contido ali.

E se permitiu um segundo de confusão, ao perceber que brotava uma profunda admiração por aquele pequeno guerreiro invisível em algum lugar esquecido da sua mente. O menino lutava contra a morte, assim como a mãe. A diferença era que ele parecia estar ganhando as batalhas, enquanto Ágatha as perdia, uma a uma.  Enquanto o menino parecia estar se recuperando lentamente, Ágatha piorava a cada minuto. Os médicos, por fim, decidiram-se pelos tubos.

Ágatha estava em coma induzido.

E Hugo continuava, dia após dia, estacado, esperando, sem passar da recepção do hospital. A espera, agora, era pela coragem de subir e encarar a figura morta que deveria ser Ágatha na cama ou, ainda pior, a figura viva que deveria ser seu filho na UTI neonatal. Sentou-se em um dos bancos enfileirados da recepção, meticulosamente cobertos por um branco insosso e profissional, sentindo que teria que esperar por mais uma eternidade. A covardia podia ser algo verdadeiramente poderoso…

*** 8 ***

— Ei, Moço! — um chamado o tirou de seus devaneios. Ele virou a cabeça em direção à voz, que se materializou em um menino macérrimo, de uns oito ou nove anos. Apoiava o corpo fino num suporte de soro em miniatura, o tubinho plástico ligado ao seu pulso esquerdo como a garantir que se mantivesse preso ao chão. As bochechas cavas eram sustentadas por um olhar vivo e atento. Usava um pijama do homem-aranha, como se estivesse na sala de casa. E mantinha na mão o que parecia ser uma revista enrolada.

— Ei, Moço! Vem cá! — voltou a chamar, apressado. Hugo, aturdido, andou lentamente em direção ao menino; que o olhava como se o avaliasse.– Você pode me levar lá em cima? — sussurrou, quando Hugo chegou  mais perto.

— O que você está fazendo aqui, guri? — Hugo, ignorando a pergunta, olhou ao redor em busca de um funcionário que pudesse rebocar o pequeno fugitivo. — Quem está te acompanhando?

— Minha mãe. — respondeu, calmamente. Repetiu, como se o assunto necessitasse de uma urgência inimaginável — Me leva lá em cima?

— E cadê a sua mãe? — Hugo ignorou o pedido. Sentia uma palpitação nervosa, ao constatar que o menino deveria ter fugido do seu quarto e, de alguma maneira, descido até a recepção. E se o vissem conversando com o menino? Pensariam que ele estava sequestrando a criança?!

— Tá em casa. Ela foi cuidar do meus irmãos. — Seu rosto se iluminou, como se acessasse uma lembrança prazerosa. — eles são gêmeos!

O estômago de Hugo desceu alguns centímetros. “Que merda é essa?! Quem deixa uma criança desse tamanho sozinha, em um hospital?!”

— E você tá sozinho?! — perguntou, incrédulo. A revolta era tanta, que ele desistiu até de baixar a voz. Alguém devia vir, levar esse menino de volta! Articulou mentalmente que deveria chamar a assistente social do hospital. “Que pais irresponsáveis!”

— Xiiiiiiiiiiiiiiiiii!!!! — O menino pediu silêncio. — Eu ‘tô acostumado. Eu moro aqui. Não tem problema, não!!! — Olhou ao redor, como se estivesse conspirando — Me leva lá em cima?!

“Mora aqui”?!, Hugo pensou. A situação se tornava mais fantasiosa a cada segundo.

— Aonde é o seu quarto? — perguntou ao menino, tentando se acalmar.

— Não! Não quero ir pro quarto! Eu quero ver as estrelas! Me leva lá em cima, por favor! Na varanda! — o menino respondeu, exasperado. — Eu ia para lá mas me perdi no elevador!

O coração de Hugo congelou por alguns segundos. O menino estava vagando a esmo por todo o enorme prédio e ninguém o havia visto?! Tinha que agir com calma. Ele precisava voltar para o quarto. Tentou acalmar as feições, mantendo a voz mais branda que conseguiu:

— Está nublado, guri. Não dá para ver nada hoje. Que tal eu te levar para o seu quarto e você tentar ir outro dia? — Se apressou a acrescentar, quando o menino começou a sacudir a cabeça: — E, olha! — apontou para o próprio relógio em seu pulso — Não são ainda nem quatro horas! Não tem estrelas no céu agora. Só o Sol.

— Não, não! Tem que ser agora! Eu não consigo andar rápido, me dá dor de cabeça. Tem que ser agora, para chegar a tempo!!!

“Puta merda!”, pensou Hugo. O menino não pode fazer esforço, isso era certo. Teria que carregá-lo. “Dores de cabeça, ele disse…”. Respirou pesadamente, olhando para as estranhas manchas que permeavam a cabeça perfeitamente lisa do menino. “Deve sofrer de problemas de pele também…?”. As marcas eram meio avermelhadas e levemente amarronzadas. E uma marca, como uma cicatriz de um corte fundo existia bem no topo do cocuruco. “Caiu…”. Coitado do guri. Era só uma criança. Podia ser a sua criança, se ele pensasse bem, uns dez anos para frente. Ele engoliu, surpreso com a constatação de que a criança não era apenas de Ágatha. Era sua, ele tinha que admitir. O coração doeu um pouco, enquanto ele colocava esse pensamento desconfortável de lado.

*** 9 ***

— Então vamos fazer o seguinte: — Hugo recomeçou, acalmando o menino — Você volta para seu quarto e outro dia, quando o céu estiver sem nuvens, eu te levo lá. Mas hoje nem adianta. Tá tudo nublado, guri. Não vai dar para ver nada.

— Não tem problema! — rebateu, sorrindo. — Elas estão lá no céu, é só que a gente não consegue ver! É só a gente imaginar! Por favor, me leva lá!

Hugo suspirou pesadamente, pensando em como fazê-lo entender sem se aborrecer. Não dava para levar o menino à tal varanda, ficava na cobertura! O céu nem sequer estava limpo… Que teimosia! Ele não era muito bom com crianças, afinal. Se fosse Ágatha, o menino estaria deitado em sua cama, tirando um cochilo, em dois tempos mas ele nem conseguia fazer o menino querer voltar. Ágatha… O sentimento veio como um tsunami. Fazia meses que não a via e agora… Nem sequer tinha coragem de subir e  lhe dizer o quanto sentia a sua falta. Não para uma casca vazia deitada numa cama.

— Você tá triste? — Hugo devia ter denunciado a derrocada dentro de sua mente, porque o menino o olhava com certa piedade. Estava triste? Não. Estava quebrado. Mil vezes pior…

— É minha esposa… Ela está muito doente lá em cima. — respondeu, sem dar mais detalhes.

E o menino assentiu, como se a situação fosse completamente inteligível. Andou devagarinho em direção ao banco mais próximo e se sentou olhando para Hugo ainda com aquela expressão de compaixão difícil de encontrar em uma criança dessa idade.

— Ela pode morrer? — perguntou, enquanto Hugo ia sentar-se ao seu lado. Tão direto… A palavra terrível se encaixava na sua boca como uma velha conhecida. 

— Sim. — respondeu, simplesmente.

— Você quer que eu diga algo para ela, se ela morrer? Eu gravo na cabeça e conto para ela depois. — propôs o menino.

Hugo parou, assustado, ao ouvir aquilo. O garoto acreditava ser algum tipo de médium ou algo do gênero? Estava brincando? Encarou o rosto magro em busca de um sinal e tudo o que lhe preencheu os olhos foi a verdade: as mãos cadavéricas, o rosto escavado, a pele amarelada e esbranquiçada, os olhos fundos, pretos e vivos. Vivos de compreensão da dimensão do que falava. Olhou com atenção as marcas no couro cabeludo fino e sofrido. Como ele não tinha detectado as marcas das sessões de radioterapia? Ele conhecera pacientes assim, nas poucas reuniões que frequentava com a mulher.

A sombra da doença  envolvia o frágil menino como ma capa. Como não tinha percebido antes?

— Você está morrendo…? — deixou escapar a pergunta, antes mesmo que pudesse pensar em refreá-la. — Quero dizer, está doente?

Ele tentou consertar a pergunta sem perceber o quão redundante ela parecia. O menino estava internado em um hospital. “Eu moro aqui!”, havia dito. Obviamente, estava doente.

— Sim. — Respondeu, Hugo sabia, à primeira pergunta. — Eu ainda tenho uns meses. Minha mãe me disse que vou sair daqui essa semana e voltar para a casa, porque não tem mais remédio nenhum para tomar… — voltou a encarar Hugo, como a continuar o assunto principal: —  Então, eu sou o Lucas. Fala para ela, se ela morrer, para me procurar. Ou eu posso achar ela! Qual o nome dela?

— Ágatha. — a palavra saiu seca de seus lábios. Mas, pela primeira vez, o deserto em sua boca não se instalara devido a situação de sua mulher mas à revelação do menino. Hugo não conseguia deixar de encará-lo, algo dentro de sua alma se esmigalhando ante a noção de que aquele ser tão minúsculo, bem ali do seu lado,  encarava a morte como quem encara uma chuva no domingo: era triste, sim, mas não havia o que fazer. A chuva cairia, a morte viria e a vida era assim mesmo. Procurou, incerto e esperançoso, algum sinal de que tudo fosse uma brincadeira de mal gosto. Ou um exagero. Ou uma loucura. Mas nenhum veio. Ele sentia a verdade da situação. O menino estava morrendo mas seu rosto não demonstrava dor. Ao contrário, iluminou-se à menção do nome de sua mulher, como se uma surpresa inesperada pulasse para fora de um presente de aniversário.

— Você é o marido da Doutora Ágatha?! Ela era minha médica!

*** 10 ***

“Paciente de Ágatha?”, a pergunta girava na sua cabeça. Ela saberia que o menino estava morrendo? “Oh meu Deus…! O menino é paciente de Ágatha”. A ânsia de fugir vinha em ondas, o sentimento dos laços entre o menino, ele e a mulher se fechando e se unindo dando energia renovada à agonia. Era só um menino, tenham piedade! Um menino dessa idade, como podia falar de morte assim, como se fosse algo simples? Lucas permanecia alheio à confusão mental de Hugo, falando animadamente sobre Ágatha e suas conversas compartilhadas: “E o seu bebê? Ele nasceu?!” — “Oh meu Deus, o menino sabe da criança…”, os pensamentos inundavam seu crânio como correntes.

— Ela te contou dos nomes?! A gente ficou escolhendo os nomes maior tempão!!! — o menino continuava, inclemente, sem se dar conta de que a cada nova frase, o coração de Hugo desacelerava mais. — E eu escolhi “Alan”, porque aí todo mundo ia chamar ele de “Al”, que nem chamam o Aladdin!!!

Olhou para Hugo, afoito. E continuou, como para disparar a flecha final no peito de Hugo:

— Ela está no quinto andar também?! Posso ir visitá-la antes de ir embora?!

Visitar Ágatha. Ele queria visitá-la. O menino queria vê-la antes de morrer, se esquecendo — em sua euforia — que poderia “procurá-la”do outro lado, como ele mesmo propusera. Talvez ele a encontre, de fato… A consciência de Hugo vagou para recantos mais fundos, onde a imagem de Ágatha, etérea e irreal, o bebê disforme acomodado nos braços esguios, conversava carinhosamente com o menino. Seria assim que o menino imaginava que se encontrariam? Todos mortos, felizes e em paz em algum paraíso perdido?

Todos mortos. Estavam todos morrendo: Ágatha morria, o filho de Ágatha morria e o paciente de Ágatha morria. Parecia que ela estava sumindo, lentamente, do mundo inteiro. 

Levantou de súbito, assustando o menino e saindo sem dar resposta ou indicação. Não era esse o mundo em que ele queria estar, não era essa a vida que ele achava que merecia. Saiu com violência porta afora, esperando deixar para trás toda a angústia e o medo, a covardia e a morte. Levou a mão ao bolso em um gesto de desafio, arrancando o maço como quem arranca uma raiz de um solo duro; e enfiou com propriedade o cigarro nos lábios, virando para pedir fogo para a vítima mais próxima, sem se importar quem seria. 

Tragou fundo, deixando  a fumaça tóxica preencher cada centímetro do seu pulmão e da sua mente. Esperou chegar o bem estar e a dormência; ansiou pela certeza venenosa de que tudo iria se consertar, de alguma maneira. Esperou que o beijo da nicotina o embalasse ao passado, à vida antes da choppada, à juventude, à todas as possibilidades para trás deixadas e esquecidas.

Um passado sem Ágatha e um futuro sem a criança.

E a fumaça se tornou amarga.

Fim da Parte [3]

Conto #3: O Invisível – Parte [2]

Segunda parte do Conto #3!!!! Vocês podem ler a Parte [1] neste link. 

Parte [2]

*** 4 ***

Coma alcoólico.

Era esse o diagnóstico proferido pelo médico; que falava agora à figura meio aturdida, descabelada e esguia que era Ágatha, a mãe da Fê. Ela escutava o doutor com os olhos apertados e a respiração presa, conversando em termos práticos, técnicos e imediatos. Ágatha entendia do assunto, ao que parecia. Era neurologista, como descobriu mais tarde, e ele se sentiu um allien naquela sala, entre dois seres de óbvia intimidade profissional. Assim que o médico se retirou, a mulher voltou-se para ele:

— Então… Quem exatamente é você, rapaz? — ela o avaliou — Fernanda não me falou nada sobre mudar de gosto tão de repente. Suponho que não seja namorado dela, não? Não que eu me importe com quem ela se enrosque, desde que fique bem.

O tom era impaciente, autoritário e, pior, havia uma camada meio escondida de raiva embaixo de tudo. Colocou uma ênfase tão óbvia no “fique bem”, que ele se sentiu uma criança repreendida pela professora de escola. Sabia de onde vinha a culpa: ele deveria ter impedido que Fê bebesse tanto. Sabia disso, mesmo que ela fosse maior de idade e dona de si. Sabia que deveria tê-lo feito. E agora teria de enfrentar o seu superego em forma de mulher, bem na sua frente.

— Sou… um amigo da Fê. — respondeu, acanhado. — Estávamos juntos na choppada.

— Amigo? — Ela o encarava depois de sua resposta envergonhada. — Que espécie de amigo é essa, que deixa a amiga beber até cair? Ela, ao menos, comeu alguma coisa? Você sabia que ela não estava acostumada a beber?

A coisa foi só piorando, jogando-o ladeira abaixo a cada palavra. Ela só silenciou sua cascata de acusações quando o médico voltou com o resultado do exame, mostrando que — depois de medicada — ela receberia alta, desde que ficasse em repouso em casa. Diante da informação de que a filha estava fora de perigo, os ombros cederam e ela se permitiu, enfim, sentar. Massageando a têmpora com a mão, ela voltou a se dirigir a ele:

— Se vai ficar, rapaz, senta. Senão, vá para casa… — virou-se para ele, que ficou sem saber qual seria a melhor opção. Devido a confusão aparente nos olhos dele, ela acabou por amolecer um pouco, se compadecendo da juventude do garoto que socorrera sua filha. Devia ter pouco mais de 20, era quase uma criança ainda. É claro que ela não era mais criança aos 20: já era casada, trabalhava, fazia faculdade, era dona do próprio nariz. Mas as coisas eram diferentes hoje em dia. Leva-se mais tempo para os jovens alcançarem a maturidade. “Devem ser os videogames…”, devaneou. Vendo a indecisão na expressão do garoto, resolveu tomar a decisão por ele:

— Não se preocupe, rapaz. Vá para casa. Não há mais nada que você possa fazer por aqui. Quando Fernanda voltar para casa, eu dou um jeito de te avisar.

— Ela ficará bem? — perguntou, ansioso e culpado.

— Não. — respondeu, para desespero do rapaz; que arregalou os olhos, num horror franco. — Foi bom mesmo ela não ter morrido, porque eu vou matá-la eu mesma quando acordar! Ela nunca mais vai colocar um gole de álcool na boca, pode apostar. — ameaçou — eu vou fazer ela pegar tanto horror à essa porcaria, que ela vai implorar para brindar o ano novo com Sprite. — terminou, calmamente. Ele se retirou sem saber se era brincadeira ou não.

*** 5 ***

Ágatha não matou a filha, que apareceu na universidade na semana seguinte para pegar a nota de Língua Potuguesa II. Mas o efeito fora alcançado, quando ela jurou que nunca mais beberia daquele jeito. A mãe a havia obrigado a frequentar um abrigo para famílias vítimas de alcoolismo e ela saíra da primeira visita com uma forte repulsa ao álcool. Hugo ficou surpreendido com o método: de fato, não poderia haver nada mais eficaz. Ele foi à uma granja uma vez, quando criança, encomendar uma galinha caipira para avó, e desde então não conseguia mais comer frango… Além de protetora, a mãe de Fê se mostrara uma mulher inteligente.

Aos poucos, passara a frequentar a casa de Fê e a se familiarizar com a personalidade e a presença de Ágatha na sua vida. Mãe e filha eram muito parecidas e muito diferentes, ao mesmo tempo: Fernanda pintava os cabelos de um loiro queimado, como se clareado pelo sol, mantendo-os longos e sedosos, sempre soltos — motivo de admiração e inveja pelos corredores do prédio de letras; enquanto a mãe os tinha castanhos e curtos, cortados de forma assimétrica e elegante. Os cabelos de Ágatha refletiam parte de sua personalidade prática, criativa e firme. Partilhavam, contudo, os olhos grandes e castanhos escuros, o nariz comprido e a pele tostada, como se algum ancestral indiano tivesse guardado essas características para lhes dar um ar exótico e natural. O resultado geral era muito bom, ele tinha que admitir. Ele ficava mais e mais fascinado a cada visita.

Até que percebeu que estava encantado demais. E convidou, depois de muita tortura mental, Ágatha para sair…

E foi quando ela recusou, pela primeira vez.

Houveram muitas outras recusas, insistentes e contínuas. Fê ria-se dele, chamando-o de louco, crente de que o impulso insano de Hugo era apenas uma paixonite adolescente meio tardia. Mas Hugo mostrou-se um verdadeiro sobrevivente.

E, com o tempo, até Fê entrou na briga, tentando amolecer o coração da mãe. Estava mais do que claro que Hugo estava louco por ela e Fernanda não podia mais rebater a sinceridade do sentimento do amigo: Parou de fumar, arrumou um emprego, entrou para o mestrado. Ela viu ele se tornar um homem quando passou a olhar para mãe dela como uma mulher. Era algo difícil de se ignorar, o processo de Hugo se transformando em algo à altura de Ágatha. Não por imposição ou fingimento ou receio de não ser suficiente… Apenas a vontade louca de querer alguém modifica uma pessoa até o mais fundo da sua alma, sem torná-la nada além de ela mesma. Hugo a amava e o amor o tornava ele mesmo, o que ele queria ser.

Depois de muita batalha, Ágatha cedeu. Eles namoraram por mais alguns anos até por fim se casarem. Foi Ágatha quem pediu, dessa vez. Eles estavam em Paraty, na única semana de férias comum aos dois, quando ela saiu do banheiro vestida toda de branco – vestido longo, sapatos e flores no cabelo – com o anel brilhando na mão esquerda.

— Na minha mala, tem um terno. É para você. – o sorriso dela parecia cada vez mais etéreo, à medida que a lembrança tomava conta da sua memória – Hoje vamos nos casar.

Ela rira da cara de espanto dele – ainda nu, na cama – entregando-lhe uma caixinha com uma aliança. O casamento estava marcado há meses e ela manteve segredo, escolheu as férias na data prevista, preparou tudo. Ela sabia que ele a queria pelo resto da vida. O coração dele se abriu de amor, ao lembrar que ela também o queria. Que ela o amava, que também queria estar com ele por toda a sua vida.

Um esgar doentio cruzou sua garganta enquanto voltava à realidade, estirada na sua frente, bem no hall do hospital, onde – em algum lugar dos muitos andares, acima – Ágatha morria.

*** 6 ***

O celular vibrou quando a mensagem de Fê chegou. “Aonde você está?”, a tela perguntava. Ele olhava e olhava, sem saber a resposta. “Em Paraty”… Era o que gostaria de responder. Mas não estava mais em Paraty. Encostou-se na parede, abrindo caminho para um casal que saia do elevador de mãos dadas à uma menininha, compenetrados em sua própria complexidade vívida de paternidade. E, mesmo sem perceber, ele se pegou pensando se aquela menina foi tão desejada quanto Ágatha desejou o seu menino. Olhou ao redor, procurando mães em todos os lugares, perguntando-se mentalmente quais delas teriam decidido pela vida do filho se estivessem no lugar dela, se tivessem que escutar que provavelmente não sobreviveriam à gravidez. Se tivessem que escutar que suas vidas estavam em risco, que deveriam abrir mão das vidas de suas crianças.

No dia em que a sentença de Ágatha foi divulgada, o mundo inteiro pareceu se calar. O silêncio no quarto estava morto, assim como ele, assim como ela. As palavras do obstetra ecoavam nos ouvidos de ambos, dissonantes, aleatórias e pesadas. Coisas, até então distantes e sem sentido como “Diabetes”, “Pressão alta” e “Alto risco” se misturavam com precipícios mais fundos como “Interrupção da gestação” e “risco de óbito”.

A ideia, no entanto, era clara: Ágatha, em seus 50 anos e problemas de saúde – herdados da mãe – estava sendo aconselhada a interromper a gestação – o que é permitido quando existe o risco da mãe vir a falecer. Mas ela não admitiu a ideia de abortar a criança. Por mais que o médico insistisse, ela se recusou a ouvir. Sabia quais eram os riscos, “estou ciente”, era o que dizia, vez após vez. Ela se mostrou irredutível do começo ao fim.

Até mesmo quando foi detectada a alteração cromossômica do bebê. Quando descobriram que o filho teria Síndrome de Down, que precisaria de suporte o resto da vida, uma vida que ela provavelmente não compartilharia, foi sugerido mais uma vez que a gestação fosse interrompida. Ainda dava tempo, ela mal tinha alcançado o terceiro mês.

Hugo implorou. Disse que eles poderiam adotar quantas crianças ela quisesse, se era um filho que queria ter. Que ela não precisava se arriscar assim. Ela o ignorou.

Hugo implorou mais uma vez, dizendo que a vida dela não valia menos que a vida da criança que ia nascer. Que se ela morresse, de que adiantaria dar à luz ao bebê? Ela se zangou. Briga feia mesmo, de gritos e acusações e verdades expulsas das bocas antes que se dessem conta de que tinham saído. Ágatha permaneceu firme e ferida, fechando-se na sua própria resolução.

E, na última semana antes do prazo estabelecido em que a gestação poderia ser interrompida, Hugo se viu implorando mais uma vez, dizendo que ela estava sendo egoísta. Que estava obrigando-o a cuidar o resto da vida de uma criança, sozinho, sem lhe dar direito de escolha. Não houve briga, tampouco gritos. Ágatha estava exausta, já, a gravidez sugando rapidamente toda energia necessária para arroubos — e não por causa do bebê em seu ventre.

Então, depois dessa última tentativa, Ágatha finalmente cedeu à covardia dele, e o deixou.

FIM da Parte [2]

Conto #3: O Invisível – Parte [1].

Mais um conto na Oficina!!! Gostei desse trem, gente, de escrever contos! hahaha Bem, vamos à primeira parte e boa leitura!

Parte [1]

*** 1 ***

Como um sinal do destino, tocava Madonna na banca de jornal. Ele não entendia como alguém escutava Madonna em pleno ano 2010, como se 10 anos voltassem misteriosamente no tempo e o trouxesse de novo ao hangar da UFRJ, quando Don’t Tell Me tocava ensurdecedora enquanto carregava Fernanda nos braços, à procura da ambulância do SAMU. A mesma Fernanda que agora estava no hospital, os braços em volta do amontoado de cobertores e eventual  pedaço de pele que era seu filho. Seu primeiro filho, mirrado, minúsculo e prematuro.

Sentiu um leve tremor nas mãos, procurando a cartela de cigarros. Ele começara a fumar ainda aos 15, levado pela crescente necessidade de autoafirmação adolescente. Parara aos 25 e agora, com 35, decidiu que precisava de um trago. Estava louco por uma tragada desde que o menino nasceu.  Pagou ao jornaleiro, enfiou o maço no bolso da calça e saiu andando de volta ao hospital.

Ficou o tempo todo consciente do maço ali, fazendo volume, pesando horrores, sua bunda quase caindo no chão à cada passada. Ele se arrastava no processo de andar entre os transeuntes da calçada bem delimitada da zona sul. Parou do lado de fora da fachada do hospital, onde pessoas se aglutinavam em grupos e algumas poucas permaneciam solitárias, todas dividindo o exercício de se intoxicarem com suas tragadas fundas, corriqueiras e infinitas. Alheias à ideia de que estavam intoxicando todos que entravam e saiam das portas duplas junto com elas… O mundo parecia um lugar melhor para cada um dos fumantes e pior para todas as outras pessoas que passavam. Uma dicotomia digna de uma tragédia grega: A Vida e a Morte, o Bem e o Mal, a Luz e as Trevas. Ele e o Menino.

Don’t Tell Me, insuportável, continuava a tocar na sua mente. Mas não teve coragem de pegar o maço recém comprado do bolso. Parara de fumar por causa dela e não queria desapontá-la ainda mais… Ela, que estava em algum daqueles quartos lá em cima, o corpo inteiro lutando contra os efeitos de uma gravidez de alto risco. Puxar um trago agora, com Madonna na cabeça, seria aceitar voltar 10 anos no passado e pisar em tudo que eles passaram para chegar até ali.

Tentador…

Mas lembrou do menino, por Deus…! Não poderia mais voltar, nunca mais. Respirou fundo, olhando para o relógio e sentindo um cansaço imenso nos ombros. Tinha marcado com a Fê de se encontrarem às 14h. E já estava dez minutos atrasado.

*** 2 ***

Hugo e Fê se conheceram no trote da faculdade de letras, o orgulho da admissão na Universidade Federal do Rio de Janeiro pulsando em diferentes cores por todo o corpo. A química entre os dois foi fatal: Existem laços que só podem ser criados ao dividirem o inacreditável ardor de uma tarde pedindo dinheiro no Centro, copos de plástico na mão e sorriso no rosto, tinta guache vagabunda em cada centímetro exposto do corpo e boa parde dos cabelos. Em uma tarde, se tornaram velhos companheiros. Ele todo pintado de verde e ela, de vermelho; ele bicho do Latim e ela, do grego; ele com 20 e ela com 18; ele, negro e ela, loira; ele, galinha e ela, lésbica. Os rótulos eram muitos mas nenhum melhor do que esse: amigos.

No final do segundo semestre, terminadas as provas finais, combinaram de barbarizar na choppada do curso de Engenharia Elétrica. Se havia um curso que mal parecia se importar com provas de final de semestre, era a Engenharia. Não apenas a elétrica, mas não importava mesmo qual a subdivisão; para eles se tratava de um curso só: O curso do pessoal que usa gel no cabelo e camisa social, cujos estudantes sempre reclamam que não tem tempo de estudar para as disciplinas da faculdade por fazerem estágios mas vão à choppadas e festinhas afins semanalmente. Épicas, por sinal: não se podia menosprezar a grandiosidade de uma choppada da Engenharia. A música era tão estrondosamente alta que nem os seus pensamentos ficavam acessíveis aos ouvidos; sempre haviam diversas opções de fast-food caseiros diferentes — do milho ao churrasco, passando em escalas pela tapioca e o queijo qualho– e a bebida era tão barata que se suspeitava estarem vendendo qualquer coisa parecida com água misturada à cerveja. Eles tinham passado em Fonética, afinal, e mereciam toda a glória de uma choppada da Engenharia.

Estava claro que, depois do décimo e tantos copo, a única espiga de milho no estômago de Fê estava perdendo a batalha para a quantidade surpreendente de álcool que ela tinha ingerido: Ela começava a passar muito mal ao lado da barraquinha de cachorro quente. Hugo segurava as longas madeixas da amiga, enquanto ela vomitava ininterruptamente, esterilizando a moita de capim – seu alvo absoluto – para o resto dos seus dias. Aquilo estava indo longe demais… Ela estava perdendo muito líquido.

Era precisamente nisso que estava pensando quando ela desmaiou, pálida como um cadáver, e ele gritou em busca de ajuda, desesperado, tentando em vão se sobrepor ao hit que embalava a multidão febril ao redor. Mas passou praticamente desapercebido. Ele gritava até onde a garganta aguentava, mas parecia que ninguém iria escutá-lo.

Ele nunca seria páreo para Madonna, realmente.

*** 3 ***

Ele entrou no elegante hall do hospital, indo na direção dos elevadores. Havia um espelho monumental ocupando a parede oposta e ele percebeu, vagamente, como estava mal vestido para aquele ambiente: chinelo havaiana, camisa de malha e bermuda jeans. As pessoas que passavam por ele tinham o ar da riqueza casual, a grande maioria parecia taciturna e preocupada. Natural: Afinal, ali era a entrada do prédio para os visitantes. Ninguém realmente gostava de visitar um parente doente. Ninguém gosta de ver, bem diante dos seus olhos, uma pessoa querida e pensar – lá no fundo do seu ser – que talvez seja a última vez que a vê. Que talvez ela não resista.

Que talvez ela morra

Engoliu em seco, tremendo compulsivamente enquanto procurava o maço de cigarro e dava meia volta à procura da porta de saída. Mirando o logotipo em estilo clássico e profissional da rede de hospitais em que se encontrava, parou como se alguém o estivesse segurando pelas pernas. Sentiu, súbito, como se tudo fosse uma brincadeira de mau gosto, o deja vú cada vez mais evidente a cada momento.

Não tinha reparado antes que esse era o mesmo hospital onde socorreram a Fê naquela noite. Que foi exatamente ali… Parecia que o mundo inteiro queria que ele lembrasse da noite que a conheceu.

Fim da Parte [1]