Confissão #2: Os dedos em riste e a premissa da gentileza

********** Abrindo as portas do confessionário ***********

Deixa eu contar uma coisa pra você, que adora apontar o dedo pras mães na rua, pros colegas de faculdade, pros vizinhos. Não vai ser uma historinha feliz, então se você está atrás de felicidade de comercial de margarina e não aguenta uma dose de realidade bruta, não diluída, então caia fora. Hoje a Oficina não está para o seu gosto, não.

Ontem, mais uma vez, meu menino surtou. Ele tem TEA e quando surta, como é comum aos autistas clássicos, usa da autoagressão e agressão alheia para extravasar essa carga de energia. Não me pergunte o que causa os surtos, porque ninguém sabe. Ele só começa: tira os óculos, o casaco e larga os bonecos que segura, em todo e qualquer momento, tirando o surto, nas mãos. É um ritual simbólico para mim, agora que penso nisso… Para ter com violência para consigo e para com o outro, ele meio que abandona o seu “eu” consciente. Meio que deixa de ser o meu Shippo e passa a ser um conglomerado de violência. Para consigo e tudo o que ele considera parte de si. Ou seja, para comigo também.

Depois de horas naquela existência confusa e bruta, depois de lutar para enfiá-lo ainda a nos bater embaixo da água gelada, depois de machucar o meu pulso (já lesionado pela tendinite), depois de muito gelo e lágrimas, depois de se acalmar e seu olhar voltar a clarear, ele pediu pra comprar pão. O incidente, a dor, a angústia, a violência parecem ter ido parar num plano semiescondido da sua mente. Mesmo que ele tenha se batido tão forte nos lados da cabeça que eu tive que aplicar quase uma hora de gelo depois, mesmo que eu não consiga levantar os braços direito de tão machucados que estão. Mesmo que temporariamente, os fantasmas doloridos de sua mente se afastaram e eis que surge uma preocupação real: precisamos de pão.

Olhei para a bagunça ardida em que eu estava e pedi para tomar banho primeiro. A água fria caía nos arranhões no meu braço e eu sentia a farpada funda da dor, como um choquinho agudo. Tive certa dificuldade de segurar o sabonete e me dei conta de que precisaria aplicar um pouco de gelo ali também. Chorei, mais uma vez. Dessa vez, não da dor mas do vazio. Tentei rezar, em busca de algum significado que me preenchesse.

“Senhor Deus dos desgraçados…” — comecei, de novo. Mas respirei fundo e parei. O que eu pediria, que já não pedi? Me aquietei de novo no vazio, lembrando da hora que se passou. Sabem o que é estranho? Eu nunca havia começado uma oração assim. As palavras saíram da minha mente, como se estivessem se libertando de correntes pesadas, enquanto eu tentava conter meu irmão na cama e ele golpeava meus braços sem cessar. Me vi fechando os olhos e rezando baixinho:

“Senhor Deus dos desgraçados, por favor, ajude meu irmão. Por favor, ajude o meu irmão…!”

Uma, duas, três, incontáveis vezes essas frases saíram pequenas e trêmulas dos meus lábios. E percebi, depois, no banho, o porquê de elas terem saído assim, livres, de dentro de mim. Eu percebi que não era ao meu irmão que me referira naquela hora. Que, quando rezei pelo Deus que olhava os “desgraçados”, eu rezei por mim. Era assim que eu me sentia: desgraçada, no sentido real — sem graças, sem forças, sem nada. Saí do banho com essa nova perspectiva de mim mesma. Sou uma pessoa orgulhosa, então admitir que me sentia assim, abandonada de tudo, deveria ser um ato dolorido. Ao invés disso, me aquietou. Não era nada mais do que isso, entende? Eu não precisava mais fingir para mim mesma que eu me sentia maior do que isso; que era real a ideia de que eu sou melhor do que a sensação de abandono. Não sou, é óbvio agora.

Saí procurando por uma camisa de manga para vestir, de forma a ocultar os machucados do meu braço. Estava calor e percebi que ouviria o cometário bem humorado dos vizinhos quando passasse: “Eita, menina, que frio é esse que você está sentindo?!”. Seria acompanhado de uma risada de bom humor, como a selar a boa relação comunitária entre nós. E eu sorriria e daria de ombros, como quem diz:”ah, mas eu gosto assim mesmo” e seguiria em frente. Mais um início de noite na vida cotidiana. Passei 7 anos na universidade carregando casacos mesmo nos dias mais quentes. Às vezes, quando o calor começava a ficar insuportável, eu tirava para colocá-lo novamente logo depois; quando eu sentia os olhares nas machas roxas e arranhões em meus braços. Em resposta às brincadeiras em relação ao meu suposto frio, eu sorria e dava de ombros. Com o tempo, elas tomavam corpo de impaciência, como se o fato de usar casaco no calor do Rio de Janeiro irritasse os meus colegas. E eu meio que concordava com eles, talvez porque, lá no fundo, eu estivesse irritada também. Então, acreditava, a reação deles e sua brincadeiras não me afetavam, em absoluto. Mas percebi ontem que, na verdade, secretamente, eu meio que me ressentia delas. Mesmo quando eu explicava a situação, as pessoas só faziam uma cara esquisita — de pena/repulsa — e mudavam rapidamente de assunto. E percebi, agora, que eu me ressentia desse abandono.

Passei 7 anos na faculdade, quase cinco deles no Observatório também, e todos adoravam reclamar ou brincar do fato de que eu, não raro, caía no sono em cima do teclado do computador enquanto trabalhava na minha pesquisa. “Vai dormir em casa, menina!”, me acordavam. Ninguém nunca se perguntou que, talvez, eu não pudesse dormir em casa. Que minhas horas de sono eram usadas para estudar a matéria que eu não conseguia estudar durante os finais de semana e dias livres, porque meu irmão não deixava. Passei 7 anos na universidade arrastando meus problemas de saúde e tendo que ouvir, sorrindo e dando de ombros, meus colegas e professores dizendo que “você precisa se cuidar direito, vai acabar morrendo” sem que percebessem que, no meu caso, ou era me dedicar aos tratamentos ou ir pra faculdade porque na metade do dia em que eu não estava em aula, eu estava em casa cuidando do meu irmão para minha mãe fazer a faculdade dela. Nos dois últimos semestres, eu mal conseguia andar devido às dores na coluna e ainda assim, engolia a dor e ia para a UERJ. Mesmo assim, quando tive que fazer a integralização, ouvi professores me falando que eu “tinha potencial mas não me esforçava o suficiente” e “se você quisesse se tratar direito, já teria resolvido os seus problemas” e, o clássico, “mas o seu irmão não é responsabilidade sua, é isso que você não quer entender”.

“Senhor Deus dos desgraçados…”

Entre as brigas dentro de casa para que eu conseguisse, ao menos, IR às aulas (obtendo, no processo, algumas reprovações por falta que andam dificultando muito a minha vida nos processos seletivos para o mestrado), até a batalha que foi para eu conseguir fazer a pesquisa — exigindo tempo que minha mãe e minha irmã pareciam não poder abrir mão, mas que eu, aparentemente, podia; tudo que se via, fora dos muros da minha casa, era uma menina sempre sonolenta, doente, de casaco, parecendo irritar as pessoas por estar em um lugar que, obviamente, não deveria estar porque “não se esforçava o suficiente”. Pouco importava que meu coeficiente de rendimento fosse muito acima da média dos alunos de Física, que minha pesquisa fosse altamente elogiada e condecorada dentro do ON, que eu tivesse que passar meus finais de semana no Observatório para dar conta. Tudo que eu tinha, para justificar o meu orgulho e me convencer que eu era uma “agraciada”, era sorrir e dar de ombros diante do franco abandono. Porque meu orgulho não permitira, de jeito nenhum, que me vissem como uma “coitada”.

Mas ontem percebi minha estupidez. Os dedos, firmes e cruéis, sempre estiveram em riste. E o que sobrou, afinal? Uma mulher de 25 anos que mal conseguia levantar os braços machucados para conter um garoto muito maior e mais forte que ela. Uma mulher que se deu conta de que não adianta mais usar casacos e sorrir da falta de gentileza alheia.

“Senhor Deus dos desgraçados…”

Entendi que, sim, não tenho graças. Os dedos em riste sempre estarão lá, então por que não apontá-los para a verdade? Desisti da camisa de manga. Vesti uma regata branca e, para quem quisesse ver, estavam as marcas no meu braço e minha cara inchada de chorar. Deixe que apontem. Não esconder mais foi o maior gesto de gentileza que tive comigo mesma desde que nasci.

Então, gente, um pedido a quem estiver lendo isso: há sempre uma mãe que suspira, cansada e desamparada, na rua. Há sempre um vizinho que anda irritado, um estranho no trem cantando baixinho para si mesmo algum conforto em forma de canção. Mesmo correndo o risco de parecer arrogante, deixe-me dizer isso a vocês: vocês não sabem a merda que a vida pode ser. Esqueçam os comerciais e vídeos de formatura. A felicidade, para muita gente, não chega a nem perto disso. Para muita gente, terminar o dia bem significa que seu filho foi ele mesmo por um dia inteiro. E, mesmo assim, amanhã é sempre um novo dia.

Por isso, vale a máxima: Você não sabe pelo que as pessoas passam no seu dia a dia. Seja gentil, sempre.

Até.

*******As portas do confessionário estão se fechando agora ********

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Dica de vício garantido: 5 a seco e a delicada realidade de viver

Olá gente bonita! Quanto tempo, hein???? Ai, eu sei que deveria vir com mais frequencia…. Desculpem!!! Se você é do tipo que acha que “desculpas” não são suficientes quando damos uma bola fora, então espera até o final do post de hoje para decidir se eu estou perdoada. Desafio  qualquer um de vocês a não me desculparem depois disso… Qual é?! Depois dessa dica de hoje, vai todo mundo querer rezar por mim antes de dormir, mesmo quem não acredita em nenhum”Poder Superior”. rs  Vocês vão querer me convidar para as festinhas de aniversário de seus filhos e/ou sobrinhos e escrever um memorial em meu nome quando ganharem um prêmio importante. U.U Apertem os cintos, senhoritas, senhoras e senhores que eu vou introduzí-los ao meu mais novo vício musical.

Façamos agora um pequeno exercício mental: Imaginem agora a Liz batendo na sua porta, com um sorriso de comercial de pasta de dente, e dizendo: “Bom dia! Você tem cinco minutos para ouvir as músicas do 5 A SECO? Sua vida nunca mais será a mesma!”

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5 a seco é um coletivo musical, formado por Pedro Viáfora, Tó Brandileone, Leo Bianchini, Pedro Altério e Vinícius Calderoni (na ordem em que aparecem na foto acima, da esquerda para direita); 5 músicos fantásticos. Ok, ok, eu não entendo NADA de música, formalmente falando, mas não sou só eu que diz que os caras são bons: o grupo já é sucesso entre os críticos, estando presente inclusive no Prêmio da Música Brasileira deste ano com o novo álbum, intitulado “Policromo”. Todos os cinco são intérpretes e compositores, revesando o estrelismo que, com tanto talento junto, não cabe ser moldado em protagonismos mesmo. Sério! A coisa toda é tão maravilinda que eu não entendo como não tinha conhecido o trabalho desses moços antes!

O grupo foi formado em 2009 e teve seu primeiro e *** APAIXONANTE ***  DVD em um show de 2011 no Auditório do Ibirapuera. Deixando os dados “técnicos” de lado, o que mais me encanta — além da óbvia qualidade musical — são as letras: delicadas, cotidianas e poderosas. Nos lembram o poder e a gentileza das relações que construímos na realidade; com tudo que existe ao nosso redor, com a vida, com o Amor, com o mundo. Querem uma palinha? Me digam, quanto de música existe nesse amor aqui embaixo chamado “Pra você dar o nome“?

O que?! Os corações de vocês já se derreteram de amor???? Nãnãnãnãnã, não, senhoritas, senhoras e senhores!!! AINDA TEM MAIS. Escutem “Mesmo quando a boca cala“, essa preciosidade aqui embaixo:

Nomes conhecidos e experientes da música brasileira, como Maria Gadú e Lenine,  já gravaram com eles. As músicas conseguem unir o simples, o emotivo e o encanto do que é real. Com arranjos perfeitamente complexos e queridos, cada uma das músicas é um convite à reflexão. É impossível não sentir a força de músicas como “Ou não“, que o grupo gravou com Lenine:

Isso aí, gente, é só um gostinho. Quer se  maravilhar mais? Os caras disponibilizam o download dos álbuns no site do grupo http://www.5aseco.com.br/ .

Agora me digam: estou desculpada ou não??? Parem de doce e VENHAM ME AMAR, GENTE! hahaha Por último, vou de “Deixe Estar” para garantir os cartões de agradecimento de vocês. hahaha Beijo, gente, e boa noite!

Beijooooooo!!!!!!

Liz

Ps: A imagem foi retirada do perfil oficial do grupo no Twiiter oficial do grupo: 5 a Seco (@5aseco)

 

 

 

 

Resposta à polêmica com amigos: do Facebook direto para Oficina

Então, gente! Hoje a Liz vai pedir licença rapidinho porque quem vai assumir aqui é a Gabi. Só contextualizando: depois de uma postagem minha no Facebook, eu tive que escrever a resposta por aqui porque ela seria grande demais e eu acabaria pagando de “A louca do comentário” e tals. Treta de fora, senhores, na vida dessa pessoa treteira que sou! Os nomes dos meus amigos foram trocados para a letra inicial de seus nomes e não poderei reproduzir o que disseram porque não pedi autorização para fazê-lo. Então, vamos lá

O post polêmico foi o seguinte:

polemica

 

Meus amigos levantaram questões como “Não é porque  não postei sobre o assunto que não me indigno com isso” ou “a pessoa não posta sobre tudo que pensa”, “que mudança na sociedade eu esperaria de uma manifestação sobre?” e, claro — essa nunca falta… — “não se pode generalizar”. Lembrando que essas não foram as palavras literais, eu só estou dando a ideia geral dos comentários. E, por achar que a resposta não caberia muito bem em um comentário do facebook (essencialmente porque eu sei que não conseguirei escrever de forma curta o suficiente para que fosse aceitável colocar em um comentário), eu vou deixar ela aqui para, se algum deles quiser, lê-la enfim:

“Ok, gente bonita, vamos lá: Não estou dizendo que a pessoa TEM de postar  no facebook sobre tudo, Eu não o faço e, mesmo que o fizesse, ninguém é obrigado a nada. E tampouco vocês (meninos) precisam se justificar: eu não escrevi para ninguém em particular. A minha postagem vem de uma OBSERVAÇÃO. Entendam: enquanto houve uma verdadeira ENXURRADA de postagens femininas sobre o assunto (em tons feministas ou não, diga-se de passagem), houve apenas 1 manifestação masculina. Se vocês forem nos comentários das postagem original (e de todas relacionadas ao assunto, para ser honesta) verão que praticamente todos os comentários são feitos por mulheres, apenas. E, se forem em postagens antigas, não apenas minhas mas de qualquer pessoa, relacionadas à violência contra mulher, verão que não apenas foram feitas por mulheres como também quase 100% dos comentários são exclusivamente femininos. Esse padrão se repete em TODAS elas, gente: as manifestações são, sempre, exclusivamente (quase) femininas. SEMPRE. Então, fica aí a minha crítica: POR QUE OS CARAS DA MINHA TL (e eu diria que da tl de todo mundo que conheço mas, como nunca busquei isso, vou me restringi à minha experiência mesmo) discutem sobre tudo, menos isso?! Por que post sobre violência contra mulher, estupro e objetificação tem que ser feito pela “”””””” feminista louca, perturbada, com síndrome de perseguição”””””””???

Não quer dizer, nem de longe, que as pessoas devem postar sobre tudo que veem, não quer dizer que o facebook seja a única, principal e maior forma de expressão da sua vida, a única atitude de posicionamento da vida das pessoas. Não é, graças a Poseidon! O que quero dizer é que tanto via rede social quanto no mundo real, o padrão se repete: os caras não falam sobre violência contra mulher. Os caras não falam de misoginia. Os caras não costumam sentar no bar e falar sobre objetificação feminina. Falam sobre economia, educação, racismo, religião… Mas não disso. Não quer dizer que não “se solidarizem” com o ocorrido, não significa que não achem errado, não significa que sejam más pessoas. Vocês simplesmente não falam. E a gente costuma falar do que nos incomoda. Ou não?

Não tem a ver com facebook. Tem a ver com se posicionar sobre. Esta abominação que aconteceu com essa garota foi só mais um exemplo disso.

E, sim, estou generalizando. Mas nem tanto. Quando falo que “os homens são cúmplices da cultura de estupro” quando não se posicionam publicamente contra estou, SIM, falando de cada um de vocês. Porque estamos inseridos nisso, todos nós, em uma cultura de objetificação feminina que foi criada POR E PARA homens. Não entendo o motivo de se sentirem pessoalmente atacados assim. Quando falamos que os brancos foram (e são) cúmplices do racismo, é porque essa cultura foi criada para opressão (e objetificação  – embora nem sempre ligada à sexualização) de negros por brancos (no caso brasileiro, por exemplo). Sabemos disso, a ideia é natural no sentido que o racismo fora criado e institucionalizado POR e PARA a manutenção de privilégios de brancos e, em geral, os brancos continuam exercendo e usufruindo desses privilégios, mesmo que não o percebam. Portanto, eles são cúmplices dessa cultura de preconceito e exclusão, sim, a menos que lutem contra isso. Mas quando digo que homens são cúmplices da cultura de estupro quando não se posicionam contra, vocês se sentem diretamente atingidos. Por que isso?

Então, K., sim, a generalização — impessoal e expansiva — é necessária. Todos vocês, querendo ou não, acabam por serem cúmplices disto, direta ou indiretamente. Porque estamos todos inseridos nisso.  E, A., o que você esperava ao se manifestar sobre qualquer coisa? Exatamente o que, além de propor uma discussão, informar, desconstruir, expor sua opinião?  Não foi isso que você fez e faz ao postar sobre política, por exemplo? Sobre comparar as atitudes do Jean Willys com a do Bolsonaro naquele show de horrores de votação, por exemplo? (Coloquei essa porque foi a que eu lembrei mas sei que tem exemplos melhores). Não é para essas coisas que nos manifestamos em conteúdos de temática social? Estou dizendo, meus amigos, que abrir o berreiro sobre isso, mesmo que seja proclamando o óbvio, é fundamental. Que ajudar outros caras a perceberem que fazem parte e contribuem de alguma maneira com esse tipo de cultura é fundamental. Que, em certos casos, se manifestar é fundamental.

No mais, agradeço pelos comentários e por me darem a oportunidade de ter essa discussão. Beijinhos em todos.”

Beijo, gente!

Gabi ( só por hoje, né… Hahaha).

 

Um Presente dado no espaço de uma vírgula

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Descrição da imagem: Desenho a mão, feito pelo meu irmão quando ele tinha uns 10 anos. Lado a lado estão retratados eu (BIBI), vestindo uma camisa roxa de manga comprida, e ele (RAFAEL), vestindo uma camisa verde de manga comprida. Ambos estão sorrinso, possuem corpos desproporcionais e mãose pés imensos! haha Ah! E estamos lindos como só uma criança pode retratar!

As dores na coluna vem ficando cada vez piores.  Às vezes, é extremamente difícil sentir qualquer vontade de fazer qualquer coisa. Mesmo. Quem nunca sofreu de problemas na coluna, talvez não perceba a dimensão da angústia e consequente desespero quando você não consegue ficar sentada por muito tempo, aí levanta e percebe que não consegue ficar em pé por muito tempo. Aí você deita e percebe que não consegue ficar deitada por muito tempo. E aí conseguir dormir começa a ficar difícil demais. E sabe o que acontece quando você não dorme? Sua coluna piora. É um ciclo que não tem fim, meu povo!!!! E que se realimenta dia após dia.

Com o tempo, sempre que minha coluna dói muito, começo a sentir dores estranhas na nuca. Alguns choquinhos também; o que deixa tudo mega bizarro e você começa sentir que não deveria nem ter aberto o olho de manhã se era para passar o dia assim…

Bem, ontem foi um dos dias em que a cabeça começou a dar xabu. Mas nas segundas-feira eu fico responsável pelo meu irmão, Rafael. Como eu já escrevi sobre isso neste post e em tantos outros (além de comentar esporadicamente o fato), ele tem Autismo e não pode deixar de ficar sozinho… O que fazemos, então???? Sentar e chorar é opção, Brasil???

Não, não é. Ç_____Ç O jeito é rezar, engolir os remédios e seguir em frente. Então eu levantei, levei ele para escola e, na volta, já não suportava mais. Ainda arrumei a ideia de tentar pegar uma encomenda que ficou atolada nos Correios, só para piorar a situação. Ao chegar em casa, eu já estava pedindo penico.

Meu irmão não estava muito bem ontem, também. Acordou com dor de cabeça — chatice que o acomete com frequência — e pediu um remédio quando voltávamos da escola, no ônibus. Eu dei e acabei comentando com ele:

— A cabeça da Bibi também está dodói…

Ele, como de costume, não pareceu dar qualquer sinal de ter absorvido essa informação. Ok, nada novo até aqui.

Chegamos em casa e, como já falei, eu estava mal. Tipo, MUITO MAL. Minhas costas e minha cabeça estavam me matando. Ele foi direto para o banho, como de costume, e depois foi à cozinha, pronto para pedir comida daquele jeitinho de sempre. Fiquei esperando ele colocar a mão na barriga, fazer cara de “sofrido” e pedir: “Papá, Bibi!”. Eu estava semi-apoiada na mesa da cozinha, tentando sobreviver à vontade de me jogar na cama e ficar lá até a dor passar.

Mas ele chegou, olhou para mim, e virou-se para o armarinho onde guardamos remédios. Ficou ali, vasculhando um por um. Não entendi: ele só mexe ali em três horários específicos: no café da manhã, na hora do jantar e antes de dormir. São os horários dos remédios que ele tem que tomar, todos os dias. Se ele está com dor de cabeça, ele não pega a dipirona. Ele a pede. Os únicos remédios que ele pega sozinho são os seus.

— O que você quer aí, Rafael? — perguntei

— “EMÉDIO”, BIBI! — Ele responde, sem pestanejar. E, como a não restar dúvidas, completa — “DIPIO~~~NA”!. Fiquei preocupada. Ele queria o remédio de novo? A dor de cabeça não tinha passado.

— Filho, você já tomou remédio. — respondi. — Se ainda está com dor, vamos deitar um pouquinho depois do papá.

Mas ele não arredou o pé. Ficou me olhando apreensivo, a prega entre os olhos se intensificando. O dedo indicador permanecia voltado para o armarinho, enquanto apertava os lábios. Ele parecia estar pensando em algo que não conseguia exprimir. Acontece com frequência, quando ele não sabe como expressar uma ideia que tenha, até porque sua linguagem verbal é bastante limitada. Ele olhou em volta, numa busca silenciosa por ajuda.

Esses momentos de semi desespero que o acometem sempre me embaraçam. Eu queria que ele entendesse que eu esperaria por seus gestos ou palavras o tempo que fosse. Que ele não precisaria ficar frustrado ou nervoso por “não conseguir”. Que sempre encontrarei um jeito de o entender. Tentei sorrir, incentivando-o.

— Calma. Vamos lá: porque o Shippo* que o remédio? Onde está o dodói?

E foi aí que eu ganhei um presente indescritível: Ele veio na minha direção, olhou bem no meu olho (se você conhece um pouco sobre o Autismo, deve saber que isso é super complicado para eles…) e levou a mão à minha testa, pressionando-a. Engoliu nervosamente a saliva e projetou a voz como se o que tinha para dizer, o que ele queria me dizer, fosse de suma importância:

— “DODÓI”! — E, apontando para o armarinho, engolindo mais duas doses cheias de saliva: “E-MÉ-DIO BIBI”!!! DI-PI-O-NA!

E meus olhinhos se se encheram de água ao perceber que não era “EMÉDIO, BIBI”! Mas sim, com certeza, “EMÉDIO BIBI”!| Vocês não devem perceber a diferença que essa vírgula faz nessa simples comando. Mas é uma diferença absurdo, imensa, completa. É a diferença entre o seu próprio ego e o do outro. Porque quando meu irmão “põe” essa vírgula, é um “pedido”.

“EMÉDIO, BIBI”! — Significa: “Quero o ‘remédio’, Bibi!

Mas “EMÉDIO BIBI”! — Significa “O remédio da Bibi”.

Um remédio para mim. Porque eu estava “dodói”. Porque eu estava sofrendo. Porque, pela primeira vez na vida inteira, ele conseguiu, sozinho, perceber que uma outra pessoa estava doente. Porque, pela primeira vez na vida, uma prega de preocupação surgiu em sua testa pelo sofrimento de outra pessoa. Porque, pela primeira vez na vida, as correntes do Autismo não o impediram de sentir empatia por mim. Algo que eles possuem extrema dificuldade de ter, porque as conexões de interação e empatia deles são muitíssimo limitadas, devido à Síndrome.

Em uma vírgula coube o maior presente do mundo. No espaço de uma simples vírgula, há o amor e a vontade, há a determinação e o medo de não ser entendido. Há a coragem do meu menino encantado de tentar e sentir.

Às vezes, a dor me tira a vontade de viver. Mas ontem ela me deu motivos para continuar a fazê-lo. E sorrindo, se querem saber. Porque ele está ao meu lado, apesar de tudo. Não há como não sorrir com isso.

Que presente maravilhoso cabe no espacinho mínimo de uma vírgula entre duas palavrinhas!!!

Beijinhos em todos!!!

Liz (Bibi).

Ps: Não obstante procurar um remédio, ele ainda abriu a geladeira e pegou a sardinha. Procurou o fubá e tentou empaná-la. Acho que ele queria fazer o almoço no meu lugar. =D

  • Shippo é o apelido do meu irmão. ❤ O meu, como acredito que já puderam inferir, é “Bibi”. ❤

 

 

 

Dizem que sabem o que é ser índio…

Ipahá… Quáo uára tapii~a ikó. — “Dizem que sabem o que é ser índio”…

Perdoem o meu tupi arranhado. Na verdade, poucas coisas me deixam mais envergonhada do que o fato de não saber a língua mãe do meu sangue e herança. Eu sei inglês, um pouco de italiano e japonês — os três resultados de cursos formais de ensino. Consigo ler razoavelmente bem em espanhol também, embora falar neste idioma esteja um pouco além da capacidade da minha leve língua presa (muito mal notada devido aos anos e anos de terapia no fonoaudiólogo…). Mas nunca tive a oportunidade de aprender a língua dos meus ancestrais. Vocês não acham isso chocante? Se eu fosse descendente de alemão, japonês, francês, todos achariam razoável eu tentar aprender a língua que constitui a minha herança natural, de uma cultura que existe na formação da minha família quanto família e na minha existência quanto cultura. Mas todo mundo se espanta quando eu falo que gostaria de aprender tupi.

“Ah, mas é uma ascendência tããããão distante, né????”

Não, não é. E, mesmo se fosse, se eu chegasse na escola dizendo que gostaria de aprender alemão porque é a língua dos meu avós (ou bisavós), todo mundo ia achar legal. Mas tupi??? Sem chance. Tupi é “língua morta”, não é mesmo? … Meu coração se amarga só de ouvir isso. Porque se a língua é a forma como uma cultura se propaga, e me dizem que tupi é “língua morta” o que isso significa para as culturas que ela transmite?

Ipahá… Que existe um “Dia do Índio” por aí. Que é hoje, dia 19 de abril. Um dia para a gente honrar a memória desses povos mil como se fossem há muito mortos, heróis anônimos de batalhas longínquas. É tipo a farsa de Tiradentes, sabe? Que você celebra um dia no ano porque é feriado e tal. Mas, na real, é só um feriado, uma data no calendário. Mas querem saber?

Não é uma data no calendário. O dia 19 de abril carrega o sangue de etnias inteiras que foram escravizadas, subjugadas, destruídas. Carrega a luta diária a que de milhões de índios estão entregues contra a exploração latifundiária em suas terras, o preconceito e o abandono. Carrega a dor das chacinas e genocídios que acontecem à sombra da impunidade que só ocorrem pela CONIVÊNCIA de uma nação que permite que aconteçam. Carregam a dor de inúmeras culturas que são massacradas, esquecidas e ridicularizadas em fantasias esdrúxulas de carnaval e criancinhas saindo de suas escolas pintadas à la índios apache no dia em que devia celebrar a cultura dos nossos índios.

Estudamos na escola, choramos rios com a barbárie do nazismo e a xenofobia de judeus na segunda guerra mundial e não fazemos nada perante o massacre diário — em sangue, cultura e história — que ocorre com os nossos índios (de inúmeras etnias, não apenas aquelas descendentes dos tupinambás) por todo o país.

Ipahá... Que hoje é dia do índio. Ipahá que no meu DNA, 43% dos genes são de origem indígena (sério, eu fiz o teste! <3). Ipahá que no meu sangue tem o Sal e a Mata, a Chuva e o Trovão, o Sol e o Céu. E que Nhanderú, o Deus maior, o Amor como fonte da vida, tomou minha alma no colo antes de eu nascer como cria de um Filho da Natureza.

Assim como a maioria de vocês, que também tem a Mata no sangue, em algum nível. Então lembre-se que se você acha normal que os Filhos desta Terra não tenham Terra, que a cultura que deu origem ao seu sangue não deve existir, que milhões de pessoas sejam apagadas da dignidade da existência humana, então você não a merece.

Ipahá que todo dia é dia de índio. Usem esse dia do índio para pensar neles — em todos eles — como o que são: a origem do sangue do Brasil, os donos de uma terra que lhes foi tirada, herdeiros de uma cultura tão ou mais rica do que a sua vã ignorância pode conceber. E parem de se apropriar de uma dor que não é de vocês, de uma luta que vocês não lutam e de uma honra que vocês não tem: todo dia é dia de ikó e para eles todo dia é dia de luta. Eles (nós) lutam por suas culturas, lutam pela Mata, lutam pela existência. Índio não é só um bocado de pena na cabeça e um rosto pintado.

No rio vermelho de urucum que percorre a face, existe o simbolismo do Sangue que corre na vida.

Cada marca em tinta naqueles rostos representa uma relação com os deuses e com o mundo

Cada pena e cada flor representa a unidade da herança: são Filhos da Mata assim como as flores. São Filhos do Vento assim como os pássaros. São feitos de Sal assim como a mandioca — símbolo do alimento, da fartura.

São Filhos e Pais de um Brasil que precisa lhes honrar pelo que são.

Ipahá… Quáo uára tapii~a ikó.

Quáo intimahá.

“Dizem que sabem o que é ser índio.

Mas não sabem de nada.”

Iané pituna*, meu povo. Que Jaci ilumine o mundo agora, pois é Noite de anauê.

Liz

*Boa Noite

Liz is BAAAAACKKKKK, babyyyyyy!

Depois de quase três meses — SIM, DESDE OUTUBROOOO!! — eu finalmente me permiti cair no ócio mais uma vez (ainda que temporário), tirei a velha chave de uma gaveta semi empoeirada na minha mente e abri a Oficina novamente! E cá estou eu, depois de três meses, para refletir sobre meu mais novo status… Sobre ter finalmente alcançado a única coisa que busquei ter em toda a minha vida…

Ei, péra. Vocês devem estar boiando, certo? hahaha Perdoem-me, eu estou enferrujada! Deixe eu dar as notícias primeiro:

Senhoritas, senhoras e senhores de plantão:

Quem vos fala é, enfim, a mais nova Física do pedaço!

E, como sou adepta do movimento diploma-ostentação:

Quem vos fala é, enfim, a mais nova Professora de física do pedaço!

Um momento para a dancinha da vitória, faz o favor!!!

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SIM, gente bonita!!!! EU ME FORMEEEEEEI!!!! Finalmente, acabou!!! E agora, vocês podem imaginar o  vazio que está se multiplicando em dúvidas, incertezas, expectativas e vontades dentro dessa mente louca que é a minha. O futuro, senhoxs, é perturbadoramente iminente. E que sensação inexplicável é essa, de estar prestes a se jogar em mar aberto, sem saber para onde a correnteza me levará…!!!

Opa, mas esse post já está ficando cheio de caraminhólas e olha que eu pretendia só expor a minha alegria de voltar à doce companhia do ócio por aqui! hahaha Deixemos, então, minhas caraminhólas para mais tarde. Eu nem sei se consigo organizar todas essas cores misturadas na minha mente agora, quanto mais escrever sobre elas! rs.

O importante dessa postagem é: LIZ IS BACK PEOPLEEEEEEEE!!! \o/ Um pouco mais embaralhada do que de costume mas estou de volta!

E que saudade eu senti dessa minha Oficina, que a mim cheira a mar e livros e bolo de chocolate, sorrisos e uma tarde de ócio no museu, desenhando arabescos tortos no papel… ❤ Para dar alguma ideia de como estou me sentindo, me despeço com o poema que se tornou a epígrafe da minha monografia; cujos versos eu repeti — incontáveis vezes — na minha cabeça durante essa jornada.

INVICTUS

Do fundo desta noite que persiste
A me envolver em breu – eterno e espesso,
A qualquer deus – se algum acaso existe,
Por mi’alma insubjugável agradeço.

Nas garras do destino e seus estragos,
Sob os golpes que o acaso atira e acerta,
Nunca me lamentei – e ainda trago
Minha cabeça – embora em sangue – ereta.

Além deste oceano de lamúria,
Somente o Horror das trevas se divisa;
Porém o tempo, a consumir-se em fúria,
Não me amedronta, nem me martiriza.

Por ser estreita a senda – eu não declino,
Nem por pesada a mão que o mundo espalma;
Eu sou dono e senhor de meu destino;
Eu sou o comandante de minha alma.

Autor: William E Henley
Tradutor: André C S Masini

Bom estar de volta!!!

beijoooooos!

Eu não visto 38!

Oi genteeeeeee!

Sim, sim… Eu sei que ando sumida! Mas a vida está sambando na minha cara e – infelizmente – vir aqui na Oficina tem se mostrado tarefa de grande complexidade. Tristeza de vida de gado… Bem,  hoje é dia de bagunçar!!! Fazia tempo que eu não escrevia para o “Sendo bagunceira”!

Enfim, o post de hoje é derivado da experiência sanguinária de conseguir encontrar um vestido para comprar que eu gostasse e que coubesse no meu corpitcho 40 –  42. Olhem, não se deixem enganar pela aparente simplicidade dessa tarefa! Eu descobri –  ou melhor, redescobri — que se você é gorda, encontrar um vestido para ir à uma festa pode ser uma das jornadas mais causticantes da sua vida. Se Héracles vestisse manequim G, teria sido fácil,  fácil, para a três vezes chata da Hera liquidar seu enteado indesejado. Bastaria arrumar uma festança no bairro e deixar que ele perdesse todas as suas forças andando de um lado de um lado para o outro,  percorrendo as cidades-estados uma a uma, atrás de uma toga nova que lhe servisse…

Essa foi mais ou menos a minha jornada na busca se um vestido pelas lojas do Centro do Rio…   Eu confesso que sempre odiei comprar roupa e que poucas técnicas de tortura me seriam mais eficientes do que a interminável maratona põe  – vestido – tira – vestido. Tudo derivado, acredito, de uma infância marcada pela obesidade até os 10 anos de idade, os gritos de “gorda, baleia, saco de areia” e algumas risadas debochadas de primos e amiguinhos de escola. Isso tudo aliado às lembranças escabrosas de ir comprar roupas no shopping e perceber que as roupas que eu gostaria de ter, jamais caberiam em mim.

Revivi tudo isso nesta tarde do centro. E, graças a Deus, agora consigo ver isso com um mínimo de consciência…

Eu sempre gostei dos vestidos de uma marca muito fofa, chamada “Maria Filó” e, quando vi a possibilidade de poder comprar um vestido legal, foi para lá que corri de primeira. Fazia um tempo que eu não saia para comprar roupa e, ao levar em consideração que eu engordei muito nos últimos anos, a resposta à pergunta “Qual o tamanho?” feita pela bonita atendente foi, sem pestenejar:

— Acho que já devo estar usando “G”.

Mas não haviam muitos vestidos “G” na loja. Na verdade, haviam tão poucos que chegava a ser ridículo — e nenhum deles era o que eu queria. Nas araras, filas intermináveis de vestidos 36 e 38… Ficamos (minha mãe e eu) de voltarmos mais tarde, caso não encontrássemos nada mais que me agradasse.

Entra loja, sai loja. E nada de um vestido “G” legal. Nas poucas lojas que tinham os vestidos que eu gostava em tamanho “G”–  lojas CARAS. Onde os vestidos mais baratos eram na faixa de 300 dilmas, pelo menos — o vestido ficava amarrado em mim de uma tal maneira que eu tinha dificuldade de tirar. Principalmente no busto. Vejam bem, o vestido “caía” mas ficava desconfortável. E eu não suporto roupa desconfortável. Em todas as lojas em que experimentei um vestido “G” / 40 / 42, o resultado era o mesmo: não cabia em mim.

O que é estranho, é que quando vou à lojas “de departamento”, eu ainda visto — na maioria dos casos — manequim 40/42 ou roupa tamanho “M”. Mas nessas lojas — onde me deparei com uma seleção de vendedoras magras e esguias, cinturas finíssimas e clientes do mesmo molde, todas muito bem arrumadinhas, penteadinhas, cabelinhos montados e salto — eu não conseguia caber nem mesmo em um “G”. E nunca tinha “XG”. Perguntei, em uma delas, se havia um tamanho maior e a vendedora — loirinha, top rendado e saia longa. Macérrima a ponto de parecer quebradiça — que, por sinal, me olhara da cabeça ao pés quando entrei — acho que porque eu estava toda trabalhada na calça de yoga cinza, camisa de malha azul e tênis sujo, o cabelo apontando para Deus e todos os santos — reprimiu o risinho de deboche e disse:

— Não, querida. A gente só trabalha até “G” mesmo.

E me pergunto: POR QUE?

Prestem atenção a isso, é um ponto importante: Essas lojas, dos vestidos que a gente vê nas revistas e deseja ardentemente, só trabalham até “G”. Essas lojas tem fileiras intermináveis de vestidos “P” e “38” mas não tem um “46”. Nem mesmo um “42”, na maioria das vezes. Mesmo o manequim médio da brasileira sendo, na verdade, o “42” E NÃO O “38”. Gente, POR QUE NÃO EXISTEM VESTIDOS DE MARCA BONITOS PARA GORDAS, AFINAL?

E, me perdoem se soa “teoria da conspiração”, mas me parece que caímos na eterna palhaçada da representatividade. Se querem saber, vou meter o dedo na ferida, sim: Não tem vestido para gordas porque não é interessante para essas marcas serem representadas por gordas. Porque quando um pessoa veste uma marca, ela está — de certa maneira — representando a essa marca. É a propaganda do produto mais eficaz: vendê-lo a quem queremos que o represente. E, para vender “beleza”, “estilo” e “elegância”, só podemos contar com as barbies de cintura finíssima e pernas finas. Porque é assim que a “BELEZA” é: magra.  Querem saber?

TÁ FEIO, GENTE. Cansativo demais. Mesmo.

Rodei lojas e lojas naquele dia. Minha mãe me olhava como se eu tivesse 10 anos de novo e não conseguisse comprar uma roupa para eu usar no meu aniversário. Ela estava magoada, envergonhada, triste. De repente, ela parecia acreditar que a sociedade estava me dando mais um grito de “Gorda, baleia, saco de areia” e me dizendo que eu não poderia usar um vestido bonito, porque não poderia ser bonita. Porque eu sou gorda. Eu olhei para ela e tentei dizer que já esperava por isso, que estava decepcionada e cansada mas não triste.

No fim, voltamos à Maria Filó, onde a atendente – coitada! Ela tentou bastante — desencavou um vestido bonito e me deu para provar. Não era o meu estilo, na verdade, mas até que era bonito. Como esperado, o vestido entrou normalmente mas faltava fechar o ziper na parte de trás. E, como esperado, meu busto foi apertado em um nível que meus peitos quase tocaram o meu queixo, e eu imediatamente senti que não suportaria ficar uma noite inteira com ele. Olhei o preço: quase o dobro de todos os outros. Porque, claro, esse vestido era especial. Esse vestido cabia “em gordas”, é claro que custaria muito mais que todos os outros…

E pensei nos meus pobres peitos, comprimidos naquele pedaço caríssimo de tecido…

E escutei — distante e sem significado — a atendente e minha mãe me dizendo que eu fiquei linda… (de fato, fiquei bastante curvilínea no vestido. O corte favorece meu tipo de corpo…)

E olhei para todas aquelas meninas magras e pintadas ao meu redor — fossem atendentes, fossem clientes.

e decidi:  — Não cabe em mim.

Outro dia, fui ao shopping Nova América, andei um pouco, achei um vestido longo lindo numa vitrine da Chiffon. Entrei, confiante:

— Senhorita, quero aquele vestido da vitrine. — e antes mesmo que ela perguntasse: — Quero um “G”.

o “M” cabia melhor… rs

Mas levei o “G”, por causa da estampa maravilhosa. E pedi para minha tia adequar a alça.

Acinturei com um cinto preto.

E quando me olhei no espelho…

— Gente, que gorda DELÍCIA eu sou! — hahahaha — Tô linda!!!

Porque EU NÃO VISTO 38!

Beijo,

Liz.