Máquina do Tempo Literária #1: A Herança

A Herança

2016-11-10-12-55-52

CAPÍTULO 1:

Fechando a tampa…

          O quarto inteiro cheirava a morte. Morte e silêncio misturados à uma tristeza tão inesperada que poderia beirar a hipocrisia; o que foi de percepção geral sem que ninguém o comentasse. Os familiares do velho Bartolomeu se espalhavam pela casa – cada vez mais lotada com a chegada das pessoas à medida que a notícia do falecimento se alastrava – encomendando discursos pesarosos e lágrimas espalhafatosas de vez em vez. Continuar lendo

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Sobre a liberdade, desejo e vida… A cabeça girando depois de A Casa dos Budas Ditosos

Ok, gente!

Finalmente, depois de anos querendo, eu comecei minha perigosa jornada através da coleção Plenos Pecados. E, senhores, comecei logo pelas entranhas loucas da Luxúria!

Primeiro, creio ser necessário uma certa explicação: vocês conhecem a coleção plenos pecados?! É uma coleção com histórias encomendadas sobre os sete pecados capitais. Grandes nomes da nossa literatura são os autores das histórias publicadas. Deem uma olhada no time, senhores: Tomás Eloy Martínez (Soberba), João Ubaldo Ribeiro (Luxúria), Luís Fernando Veríssimo (Gula), João Roberto Torero (Ira), Zuenir Ventura (Inveja), João Gilberto Noll (Preguiça) e Ariel Dorfman (Avareza). Lógico que eu fiquei louca para lê-los! Existe algo mais tentador do que se embrenhar no pecado?

Não, gente, não existe. Eu não exalto os pecados, mas admiro nossa capacidade de pecar. Não, não é a mesma coisa . O fato de pecarmos nos torna tão… Orgânicos.Tão vivos e reais. Uma vida sem pecado seria como um quadro de Monet: lindo, mas irreal. Algo tão intrinsecamente perfeito em cores e luz que se torna disforme ao olharmos de perto.  Portanto, óbvio, que ao saber que grandes escritores basearam-se no que temos de pior (ou melhor?) eu fiquei louca de curiosidade. Mas, ainda sim, demorei um tempinho até começar.

A chance veio no amigo oculto do meu curso de Japonês. Minhas opções de presentes se resumiam a livros (oh, falta de imaginação! Sempre peço livros! haha) e dentre elas estavam dois livros da coleção. Acabei ganhando o que menos esperava (Sim, por que não acreditava que a pessoa fosse comprar logo este, devido ao teor do livro…Bem, minha amiga não sabia do que se tratava, na verdade, apenas o comprou para mim). E, na longa espera pelo ônibus para voltar para casa, comecei a ler A Casa dos Budas Ditosos.

O livro é super curtinho (quase 180 páginas,apenas) e terminei de ler no domingo mesmo. Mas essas poucas páginas foram suficientes para causarem uma verdadeira revolução na minha mente. Não me atearei aqui à descrição da história e dos personagens, isso aqui não é uma resenha (e, aliás, eu nem sei fazer uma…). Se algum dia vocês o lerem, poderão entender a que me refiro quando digo que o livro é deveras libertador (atenção: é importante que você tenha, no mínimo 18 anos, viu? Eu, na verdade, acho melhor ler até quando se tem mais um pouquinho; quando já se tenha alguma experiência, digamos assim… O livro, de fato, é pornográfico e não indico para pessoas mais novinhas de jeito nenhum…).  Minha cabeça está dando voltas e voltas até agora.

E, por incrível que pareça, essa “pane no meu sistema” não é devida às passagens de sexo explícito, nem às situações ditas “imorais”, nem à frequência em que elas aparecem. Isso tudo virou plano de fundo para mim. Não, o que me deu curto, senhores, foi a liberdade.

Aquela mulher louca queria me seduzir. Aquela narradora quis me desconcertar, me enrubescer, me abrir. Mas ela fez mais do que isso, gente. Ela me tragou. Tragou tudo, tragou cada pequena traço de pensamento e julgamento. Não, eu não compactuo com o modo como ela viveu a vida dela. Na verdade, eu nem gosto dela. Não seríamos amigas de jeito nenhum, sou muito careta para conseguir ser amiga de uma pessoa tão desprendida assim (Ora, será que sou muito atrasada, gente? haha). Ela, de fato, me detestaria. Eu não acalento os seus desejos tão diversos, eu não tenho a luxúria fundida ao meu corpo e mente como ela tem ou teve — quem sabe dizer se esta digníssima senhora existiu, existe ou não? Até onde eu sei, eu poderia encontrá-la ao dar uma volta pela zona sul do Rio e nem saberia… Mas, enfim, não digo que eu não tenho simpatia por suas ações por defesa moral. Eu simplesmente não tenho em mim os impulsos que a domaram a vida inteira, ou pelo menos não na intensidade que ela demostrou. Acreditem, eu procurei. Vasculhei em cada pensamento sórdido meu, em cada momento de desejo ou luxúria e não encontrei nada que se comparasse à vida daquela mulher.

Não foi por causa deles que ela me tragou. Foi, como já disse, a liberdade. A liberdade de ser quem quiser, o que quiser, como quiser e com quem quiser. A liberdade de ser você mesmo e reverenciar a sua essência e enxergar — mesmo onde o mundo bate o martelo de juíz, mesmo quando a vida e a sociedade te impõem barreiras — enxergar o potencial para ser feliz do seu jeito, no seu desejo, na sua vida. E se orgulhar disso.

O que me tragou, senhores, foi a escolha do ser. Que estarrecedor, esse vislumbramento que tive!

E a inveja, confesso, me veio um pouco…

E depois, primeiro aos poucos, depois como uma tromba d’água que chega sem avisar, me veio a pergunta:

Você escolheu ser quem é agora?

E, assustador, assustador…! Ainda estou procurando a resposta… Foi aí que a Luxúria (alheia, infelizmente…) me levou:

ao nada sedutor das minhas escolhas (ou não escolhas)

à confusão de uma invocação que existiu (será?)

você invocou a si mesmo?

eu ainda quero descobrir se a escolha foi minha…

e

que

maravilha

me

emaranhar

nessa

luxúria

do

ser

e

do

e

s

t

a

r

.

.

.

 

A vida, meu amor, é uma grande
sedução onde tudo o que existe se seduz. Aquele quarto que estava deserto e por
isso primariamente vivo. Eu chegara ao nada, e o nada era vivo e úmido.

Clarice Lispector

Beijos!

Liz.